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(Solange Pereira Pinto). Portanto, ao utilizar algum deles cite a fonte. Obrigada!

sábado, 20 de junho de 2009

O tombo do diploma

O tombo do diploma que já havia caído

por Solange Pereira Pinto


As conversas nos botecos, chamados alternativos, e nas salas de aulas dos cursos de comunicação rodaram feito peru bêbado em véspera de morte certa. Eram papos geralmente inflamados contra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que declarou inconstitucional a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Uma insegurança e quase pânico assaltaram estudantes e jornalistas, que falavam também em diplomas rasgados e extinção dos cursos de comunicação.

Eu, porém, pensava diferente antes mesmo do tema virar polêmica. Para ser jornalista realmente não é necessário o diploma, apenas o domínio de algumas técnicas, curiosidade, discernimento e a muita prática da redação jornalística. Assim como para ser ético, não é necessário diploma de absolutamente nada. E para ser justo, tampouco é preciso o diploma de advogado ou a toga de juiz.

Há coisas que estão além dos bancos escolares e das leituras obrigatórias selecionadas pelos professores A, B ou C. O que a decisão do STF mostra, em resumo, é que a vitória foi do empresariado enfim livre da contratação obrigatória de diplomados em jornalismo, podendo agora, sem fiscalização e riscos, colocar qualquer outro profissional na linha de produção (uma prática comum há tempos).

Curiosamente a decisão derruba o mito de que o jornalista é formador de opinião. Se houvesse realmente esse poder por parte dos “operadores da informação”, eles mesmos conseguiriam estampar em manchetes o debate e os riscos de extinção da “classe”. Assunto que pouco teve notoriedade nos veículos de comunicação.

O que se nota é que a formação de opinião é relacionada a outros poderes, principalmente o do capital e o de lugares de fala com mais status. Jornalista é nada. Jornalista (ou não) famoso (ou qualquer famoso) é “tudo”. Hoje se medem os minutos de fama e as contas bancárias polpudas para dizer "quem pode o quê e onde". Metros de disciplinas cursadas não servem (nunca serviram) para nada em se tratando de negociata, que fala outras linguagens menos sutis que o conhecimento verdadeiro.

Mais uma vez, a vitória é do mercado. Desta vez a reserva de mercado liberal (agir como quiser) dos empresários contra a reserva de mercado (educacional) de empregados jornalistas com diplomas. É a vitória contra o corporativismo de classe, diferentemente do que ocorre com os diplomados em Direito que se cercam cada vez mais de autorregulações e protecionismo (que particularmente sou contra por ferir alguns princípios meus, mas altamente compreensível em sociedades com grande numerário de gente ignorante).

Entretanto, o tombo do “grau” de jornalistas pode abrir uma chance ao autodidatismo, fator positivo neste país de educação formal falida e de fabriquetas de diplomas desde o ensino infantil. Torço para que caia agora o diploma da pedagogia, porque ensinar não se aprende em aulas de didática, ou não teríamos professores tão incapazes, analfabetos e rasos. Eu mesma não posso dar aulas para os ensinos médio e fundamental, enquanto alguns semianalfabetos com diploma de pedagogia de fundo de quintal podem. Bem como, administrador de empresas não se faz em faculdade, ou grandes conglomerados não teriam proprietários práticos, bem-sucedidos, e sem estudo. Torço pela queda da academia, finalmente, e seus títulos sobre títulos para se chegar a lugar algum. Aliás, lembremos da psicanálise que não é curso superior, contudo é sim formação. Neste caso vale o diploma? E psicólogo que faz terapia a partir de nota de rodapé de página de livro autoajuda vale certificado na parede?

Resumindo, quem vence na maioria das vezes, inclusive no caso em debate, é o interesse do capital e o lobby de alguns grupos; e no exercício raso da profissão isso vale tanto para jornalistas quanto para os magistrados e afins. Ou alguém ainda acha que a "linha editorial" do STF é isenta de interesses "publicitários"? Faz tempo que o governo e empresários contribuem para os votos relatados, que nada mais são que as matérias de capa do Supremo.

Nos tempos tecnológicos atuais só mudam os nomes das "mídias” e suas vestimentas (togas, ternos, jeans), infelizmente. Resta a dúvida, será que para advogar é mesmo necessário o diploma? Consultar códigos é mais pesquisa que conhecimento incorporado, tanto que os concurseiros de plantão passam bem em provas decorebas, as mais variadas, para serem serventuários da justiça em cargos de “qualquer nível superior”. Desejo que se tombem mais perus e que deixem a fauna humana transitar por todo o conhecimento (e seu amplo significado) sem as amarras das mensalidades de classe e salve-se quem puder, porque diploma não salva. Isso eu sei!

   




quinta-feira, 21 de maio de 2009

A pele que escuta

 

Tens no ser girassóis

Querida pedra bonita,

Preciso lhe revelar: me apaixonei. Você me libertou das rusgas e mesquinharias cotidianas. Os tropeços, os engarrafamentos, os seres imprestáveis, o desânimo diuturno, o sistema perverso e todos os barulhos insuportáveis do viver se transformaram em estátuas de sal a dormir por mais de cem anos.

Em miragem concreta, veio você. Uma visagem limpando as heras, afastando os espinhos; tirando-me da caverna, acendeu em fogueira novamente meus versos. Lembrou-me das estradas eternas (e verdadeiras) que me vou.

Por sua causa, vi o ser humano se manifestar deus criador. Fazia tempo que as cortinas tinham se fechado para a admiração. Logo eu, que sempre acreditei haver alguns clareados por aí, estava me tornando opaca. Soturna demais. Mas você veio tão forte... Tão bela... Tão inesperada! Ascendeu-me as boas sensações dormentes. Agora me sinto vivaz, em paz e feliz! Seus dedos lisos, afagando os sulcos do tempo em minha face, deslizam em poema: "dorme um sono tranquilo na casa da paz".

As horas se tornaram telas a colorir e, meus olhos,
duas lunetas voltadas às incontáveis estrelas do mar.

Em profundidade, inundo - por sua causa (e por minha) - meu caleidoscópio de sentimentos (giratórios e quebradiços) com a certeira esperança de que tudo passa. 

Percebo remontar os cacos em nacos amarelos e em tons alarajandos de "amanheceu vai além/tem nas mãos girassóis/brinca de ser o que for". 

Rodopio as idéias e a força criativa assinala meu peito em alvo inscrevendo: "salta do nada, desata e dança ao redor". 

Leio nas pedras e volto a pertencer radiantemente acolhida. Meu peito saltita em percussão e "diz sorridente ao cigano que o sonho vingou/sai do abandono e ouviras as estrelas de luz". 

Minha espontaneidade retoma as mãos e os desejos de fazer se jogam pelos meus ouvidos lambendo os tímpanos: "sai do silêncio, serena, serena canção/brinca de ser o que for/ tem nas mãos girassóis". Inebriada de canção gargalho serenamente por minhas entranhas. 

Minhas veias convertem-se em instrumentos de sopro e minhas artérias em cordas de viola. Você penetra e me traduz em música. Risca em mim o nome do amor. 

Sentir-lhe grava em mim "a laser histórias que ainda não sei". Vou contente a repetir-lhe. Uma. Duas. Dez. Cem vezes. Num sem fim para me integrar a você como se integram as vozes uníssonas do coral. 

Pede bis. 14 Bis. Encantada me lanço em "riscos da arte | capricho da sorte que vem".

Com amor,

Soll


________________________
Pedra Bonita 14 Bis Composição: Vermelho / Murilo Antunes 

Leio nas pedras um velho e claro sinal 
Traços da escrita rupestre de algum ancestral 
Linda viagem, visagem, mensagem de amor 
Sol das cavernas, estradas eternas me vou 
Amanheceu vai além 
Tem nas mãos girassóis Brinca de ser o que for 
Brilham cem mil faróis 
Salta do nada, desata e dança ao redor 
Tocam tambores nas tabas, nas selvas irmãs 
Sai do silêncio, serena, serena canção 
Joga os deuses por terra se tem coração 
Diz sorridente ao cigano que o sonho vingou 
Sai do abandono e ouviras as estrelas de luz 
Sai do silêncio, serena, serena canção 
Brinca de ser o que for Tem nas mãos girassóis 
Gravo a laser histórias que ainda não sei 
Riscos da arte capricho da sorte que vem 
Dorme um sono tranquilo na casa da paz 
Risca na pedra bonita o nome do amor





Texto de Solange Pereira Pinto


domingo, 3 de maio de 2009

Mídia, saúde, ética e ambiente - A gripe suína em quatro dimensões

 



“A gripe suína é transmitida por vias aéreas, mas a contaminação pode se dar pelo contato com objetos que tenham o vírus. Os sintomas são similares aos da gripe comum, mas com febre acima de 39 graus, dores musculares e de cabeça intensas, olhos vermelhos, fluxo nasal e tosse. Além disso, pode haver diarreia e vômitos”.

por Solange Pereira Pinto

O noticiário internacional não para. A crise financeira perde manchete para uma dita possível crise na saúde pública, e paradoxalmente o aquecimento econômico de certos grupos. A gripe suína assume o topo de toda a imprensa e, mesmo antes de uma possível “pandemia” (epidemia mundial) se instalar no planeta, o preconceito (nem sempre velado) assume a liderança na audiência.

A avalanche informacional alardeia contabilizando – uma a uma – as descobertas de casos possíveis, casos suspeitos, casos reais, casos descartados, óbitos. Os infográficos vão apresentando os países “infectados”. Os noticiários online atualizam durante as 24 horas os acontecimentos em torno do tema. O google registra no filtro de busca mais de 1.220 milhões de ocorrências dos termos “gripe suína”.

Desinformação pelo excesso de informação

Na contramão, o expectador confuso (e ingênuo) não sabe se comer carne de porco mata, se respirar pega, se a gripe que tem naturalmente pode evoluir por si só em suína. De um lado, há especialistas garantindo que o país está sob controle. De outro, controvertidamente, existem especialistas dizendo que não existe vacina disponível para o vírus. Também há quem diga que pode ser a doença plantada como saída oportunista para certos mercados. As informações são muitas e a dúvidas maiores.
A mídia massiva, por sua vez, pecando em não trazer informações mais contextualizadas e críticas, melhor analisadas, para ajudar o cidadão a entender os acontecimentos. Fica se bastando na superficialidade e na contabilidade de vítimas, na subida e descida de “números”

Mudança de nome
No meio do caminho, a Organização Mundial de Saúde (OMS), para atender empresários do ramo, sugere que se pare de chamar a gripe de suína. Em nota afirma que passará a chamar a epidemia de influenza A (H1N1) – nome do vírus causador da gripe que é subdivido em gêneros (A, B, C) e em propriedades glicoprotéicas (HA e NA) – porque o nome está gerando preconceito com relação ao consumo de carne suína, cujo ato não transmite o vírus. A iniciativa da OMS visa preservar o mercado, pois a negativa de consumo pode gerar impactos econômicos (como no passado, por exemplo, com a gripe aviária).

Agronegócio, meio ambiente e saúde
Na balança, as questões de saúde e meio ambiente tem se convergido para uma mesma relação, na qual a ética poderia tomar partido. Vejamos.

Os casos de gripe suína em humanos, que já causaram algumas mortes no México, geram uma insegurança e incertezas para o agronegócio do Brasil, importante exportador de grãos e de carnes, afirmaram fontes dos setores público e privado. "Ainda não está claro, não dá para medir o que é factível e o que é especulação. Pode mexer no milho (nos preços), apesar de esse produto também estar focado em energia (nos EUA). Gera uma insegurança", declarou a jornalistas Carlo Lovatelli, presidente da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag) e da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), pouco antes da abertura da Agrishow, maior feira agropecuária da América Latina que se inicia no dia quatro de maio em Ribeirão Preto. Além de outros impactos, como na soja.

O que não deixa dúvidas é que a Influeza A (H1N1), apelidada de gripe suína, tem sua origem no sistema de criação industrial de animais dominado pelas grandes empresas transnacionais. Para a produção em escala cada vez maior, se mantém confinamentos suínos sem a segurança sanitária como prioridade, tendo em vista políticas de mercado que prezam a rapidez do lucro em detrimento do cuidado à saúde e aos aspectos de proteção animal e humana.

As conclusões do painel Pew Commission on Industrial Farm Animal Prodution (Comissão Pew sobre Produção Animal Industrial), publicadas em 2008, afirmam que as condições de criação e confinamento da produção industrial, sobretudo em suínos, criam um ambiente perfeito para a recombinação de vírus de distintas cepas. Inclusive, mencionam o perigo de recombinação da gripe aviária e da suína e como finalmente pode chegar a recombinar em vírus que afetem e sejam transmitidos entre humanos. Mencionam também que por muitas vias, incluindo a contaminação das águas, pode chegar a localidades longínquas, sem aparente contato direto.

Medicamentos: uma saída lucrativa
Já na epidemia, são também as transnacionais as que mais lucram: as empresas biotecnológicas e farmacêuticas que monopolizam as vacinas e os antivirais. Os únicos antivirais que ainda têm ação contra o novo vírus estão patenteados na maior parte do mundo e são de propriedade de duas grandes empresas farmacêuticas: o zanamivir, com nome comercial Relenza, comercializado pela GlaxoSmithKline, e o oseltamivir, cuja marca comercial é Tamiflu, patenteado pela Gilead Sciencies, licenciado de forma exclusiva pela Roche. Glaxo e Roche são, respectivamente, a segunda e a quarta empresas farmacêuticas em escala mundial e, igualmente como no restante de seus remédios, as epidemias são suas melhores oportunidades de negócio.

Preconceito e vulnerabilidade
Voltando ao termo, percebem-se outras iniciativas procurando mudar o nome da gripe. A França propôs o nome gripe mexicana, o que foi prontamente rechaçado pelo México. Interessante é notar que na epidemia anterior, a gripe aviária começou sendo chamada de gripe asiática. Agora o esforço está no sentido inverso, da mudança de um nome ligado ao animal para um nome ligado à geografia. Por que será? Melhor proteger um porco a proteger um povo?

Mudando ou não o nome o preconceito já atinge a população mexicana. Embora cidadãos oportunistas também encontrem lugar em meio a crises para contestá-las. Tamanho é o temor mundial a respeito da pandemia da gripe suína que o zagueiro Héctor Reynoso, do Chivas Guadalajara, tentou usar a doença que vem ameaçando o planeta para intimidar um adversário ao ameaçar o atacante argentino Sebastián Penco, do Everton, tossindo e tentando jogar catarro no atleta do Everton.

Já a chanceler mexicana Patrícia Espinosa criticou a decisão da Colômbia de se negar a sediar em Bogotá os jogos dos times mexicanos de futebol Chivas e San Luís pelas oitavas-de-final da Copa Libertadores da América.

Enquanto isso, de forma mais concreta, vários países estão adotando medidas para tentar conter a propagação do vírus cumprindo a “ética da discriminação”. A União Europeia pediu aos seus cidadãos que evitem viajar para México, Estados Unidos e Canadá. Argentina e Cuba foram além e suspenderam todos os voos vindos do México. A China, que teve o primeiro caso confirmado em Hong Kong na sexta-feira, de um mexicano que havia entrado no país por Xangai, anunciou uma quarentena para todas as pessoas que viajaram no mesmo voo do que o homem infectado. O hotel onde ele se hospedou em Hong Kong também foi fechado por sete dias e todos os seus hóspedes e funcionários receberam o antiviral Tamiflu, um dos dois medicamentos recomendados pela OMS para tratar a gripe suína.

No Egito, as autoridades iniciariam neste sábado o sacrifício de 300 mil porcos como medida de precaução, apesar de os especialistas afirmarem que não há risco de infecção pela ingestão de carne de porco e que não há indicações científicas de que o sacrifício de porcos possa conter a doença.

A vulnerabilidade se espalha e o povo mexicano começa a ganhar as marcas simbólicas da “pandemia” e ter sua dignidade ameaçada, a despeito das causas ecossistêmicas que envolvem a “produção da gripe suína”. Arcam com o peso desproporcional das consequências causadas pelo contexto industrial, comercial, econômico, político que envolve e mantém o interesse de vários países; com principios éticos espirrados.

Pânico ou oportunismo?
Máscaras, kits para testes, remédios, abastecimento da despensa, as “compras de pânico” crescem. Mesmo sem casos confirmados no Brasil, o governo de Minas Gerais anunciou ainda a compra de 6 milhões de máscaras --sendo 5 milhões para a população e 1 milhão de máscaras cirúrgicas para uso exclusivo dos profissionais de saúde. A Secretaria de Estado da Saúde informou ainda que está comprando 50 mil doses de medicamento antiviral para adultos e outras 500 doses para crianças.

Além disso, o Brasil vai receber na próxima terça-feira (5) kits para diagnóstico rápido da gripe. Os kits são produzidos num centro especializado de Atlanta, nos Estados Unidos. Ações e planos de contingência em saúde pública são adotados pelos diversos países. Bolsas de mercado oscilando, caem as ações das indústrias do agronegócio suíno e sobem as ações dos laboratórios farmacêuticos (com o anúncio da nova epidemia no México, as ações da Gilead subiram 3%, as da Roche 4% e as da Glaxo 6%; e isso é somente o começo).

Números mais ou menos
Até agora, foram confirmadas apenas 16 mortes provocadas pela gripe suína no México. As autoridades mexicanas revisaram para baixo o número de casos suspeitos de mortes provocadas pela gripe suína, de 176 para 101, indicando que o surto da doença pode ser menos grave do que se pensava. Enquanto isso, a OMS está enviando 2,4 milhões de doses de medicamentos antivirais para 72 países, de acordo com Michael Ryan.

Ética da sobrevivência ou sobrevivência da ética?

Diante da complexidade (Edgar Morin) que organiza o mundo neste século, onde cada um de nós está relacionado, afeta e é afetado pelas ações e pelas idéias de todos os demais, verifica-se que estamos vivendo a era dos desequilíbrios que geram novas questões ambientais, de saúde pública e de ética.

Pede-se com urgência uma nova atitude da comunidade planetária para o desenvolvimento sustentável, com responsabilidade e respeito aos direitos humanos.

Nota-se claramente, no caso da gripe suína, a influência do consumo, da economia, do ambiente, dos contextos políticos, da indústria, da coletividade acarretando maior vulnerabilidade a determinadas populações. A vez é do México, mas poderia ser outro o país do momento.

Medidas restritivas, preconceituosas, excludentes são tomadas pelos países “amigos”. Protege-se a reputação da carne de porco e deteriora-se a da população mexicana. A chanceler do México, Patrícia Espinosa, criticou as medidas "discriminatórias e carentes de fundamento" adotadas por alguns países contra cidadãos mexicanos.

Espinosa se mostrou "especialmente" preocupada pelo caso da China — que doou ao México material e equipamento médico avaliado em US$ 4 milhões — por "isolar, sob condições inaceitáveis, cidadãos mexicanos que não deram mostras de nenhuma doença". Trata-se de uma família de cinco mexicanos que foram levados à força para um hospital e, depois, impedidos de deixá-lo até que a embaixada do México na China interveio, permitindo que eles fossem transferidos para um hotel. E advertiu que "não há justificativa nenhuma para violentar os direitos de cidadão algum, nem para adotar medidas que não têm base científica nem de saúde pública".

Em comunicados conjuntos, por sua vez, Estados Unidos, México e Canadá pedem que nova gripe não limite o comércio e os negócios internacionais. Contudo, como limitar o contato com o estigma da hostilidade social? Como o povo mexicano está passando pela gripe, seja ela forjada, ampliada, real, diante das medidas hiperbólicas adotadas pelos organismos em defesa sabe se lá quais outros interesses? Como ficam os direitos dos cidadãos mexicanos de irem e virem? Repete-se a formação de uma nova classe de excluídos (como no caso desumano das colônias de Hanseníase)? Os mexicanos simbolizarão os novos párias, embora o problema seja sistêmico e da responsabilidade de todos?

Poderíamos, neste caso, fazer uma aposta na heurística (pedagogia) do medo para se chegar à ética da responsabilidade? Ou será apenas um reaquecimento da economia global mudando o foco de investimentos e consumo? Teoria da conspiração? Paranóia global?
Mídia e bioética

O uso da mídia, ainda que mais sutil e diversificado, lembrará o desempenho do rádio nas grandes guerras mundiais (a rádio era o principal meio de informação e, também, de desinformação das populações) e da psicalogia de Goebbels (o termo psicagogia foi usado nos anos de 1930, por Serge Tchakhotine para descrever os tiranos que utilizavam a rádio para conduzir as massas através da persuasão)?

Diante de tantos questionamentos, nesse contexto de alarde (mais de pandemônio que de pandemia) e histeria falta também uma bioética de intervenção em defesa dos interesses e direitos das populações econômica e socialmente excluídas do processo desenvolvimentista mundial.

A tese defendida pelos bioeticistas Volnei Garrafa e Dora Porto é de que seria eticamente defensável a utilização de “práticas intervencionistas, diretas e duras, que instrumentalizem a busca da diminuição das iniqüidades [...] o que define as prioridades não é a demanda ou as necessidade detectadas na realidade social: é o mercado. E o mercado tem se mostrado a cada ano mais perverso, com regras cada dia mais protecionistas para os países ricos, os mais insensíveis”. Pensando assim, qual (quais) população está mais propensa a ser dizimada diante de uma gripe?

O cotidiano vulnerável dos países periféricos marcados pela exclusão social, concentração de poder, manipulação da informação, miséria, pobreza, evasão de divisas das nações mais pobres para os países ditos centrais beneficiando conglomerados industriais etc. requer uma mediação competente com o estabelecimento de políticas efetivas de defesa dos direitos humanos e da cidadania. “As conseqüências danosas, humanas e ambientais, da desenfreada expansão tecnológica são partilhadas em nome da igualdade. Os efeitos nefastos, políticos e econômicos, de um sistema que vulnerabiliza e vitima o cotidiano de milhões soa impostos em nome da liberdade. A apropriação espúria das idéias de liberdade e igualdade transformam-nas em instrumentos ideológicos de dominação e exploração, legalizados por medidas políticas e sanções econômicas”, defendem Garrafa e Porto.

Cumplicidade e intervenção
É urgente a necessidade de se romper o pacto da mídia com a produção de notícias baseadas em interesses econômicos, em leads e em apurações superficiais. Há que se estabelecer uma cumplicidade entre os meios de comunicação e os fundamentos da Bioética para um debate sobre os rumos da uma epidemia que podem estar envoltos de conflitos morais pontuando sempre a vulnerabilidade. Trazer à pauta os universos contraditórios, as posturas paradoxais, aproximar as realidades.

Enfim, falta aos meios de comunicação de massa expor uma visão ampliada e complexa da saúde humana e das ações humanas que envolvem o ambiente, a vida e saúde, exigindo-se um enfoque transdisciplinar em suas reportagens. Falta à mídia exercer com competência o seu papel de formação da cidadania e de informação de qualidade a serviço do interesse público. Falta concretizar o amplo papel da comunicação de tornar comum o conhecimento e educar a audiência à luz da bioética.

Quem com certeza mais sofre são as populações submetidas à avalanche informacional que desinforma, quem paga diretamente é o povo mexicano vulnerável aos escarros que não vêm diretamente de uma gripe, mas de outras desordens. No entanto, ainda se declara que todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole os Direitos Humanos. Mas a mídia falante se cala.

“Descobrimo-nos portadores de doenças e buscamos resolvê-las individualmente, tentando ignorar que na maioria das vezes elas são frutos de um cotidiano opressor, ditado por uma engrenagem cega que não coloca o ser humano como fim em si mesmo, mas como meio exclusivo para obtenção de lucro. Nossa cegueira, no entanto, não nos exime da responsabilidade. Devemos reconhecer que nossas escolhas cotidianas refletem uma opção ideológica voltada apenas a reproduzir o status quo” (Porto, D & Garrafa, V. Bioética de Intervenção: considerações sobre a economia de mercado. Bioética. 2005; 13 (1):111-123).


Sites consultados durante a elaboração deste texto (Acesso em2/maio/ 2009)


domingo, 26 de abril de 2009

Aborto, corpo, poder e saúde pública


 por Solange Pereira Pinto


Desde o movimento feminista, o papel da mulher (e do homem) tem se reconfigurado. Por estarmos na era tecnológica e de ampla comunicação e mídias, isso se faz – aparentemente – com maior rapidez. A nova visão de mundo e as necessidades das mulheres derrubaram mitos e tem erguido diversas formas de relacionamento com o outro e com a sociedade, de tal forma que novos comportamentos e posturas podem sim influenciar aspectos da saúde pública.

O aborto, por exemplo, tem se mostrado um tema relevante para a saúde da mulher, uma vez que aquelas que decidem se submeter a essa intervenção não possuem o respaldo técnico da medicina, exceto os poucos casos previstos em lei. Mulheres sem condições financeiras e mais vulneráveis acabam por colocar a própria vida em risco ao tentarem abortar. Ainda que em nosso país o aborto seja proibido, tal fator não impede às mulheres que de fato se vejam em certas situações – limite ou não (por elas julgadas assim) – tentem recorrer a essa prática.

“Abortar” não pode mais ser tratado como um assunto apartado do contexto cultural, plural, social e globalizado em que a humanidade vive neste século XXI. Os tempos mudaram e têm mudado ainda mais. Hoje, o domínio que a mulher pretende dar ao seu corpo é muito maior do que em tempos atrás. Hoje, de modo geral, a mulher não aceita mais que seu corpo pertença ao domínio de outrem, seja esse outro a Igreja, o marido, o pai, o Estado, a Lei. Ou, ainda, ao masculino e suas formas de representação. A mulher quer dispor do seu corpo como pertencente ao seu domínio próprio (autonomia) e integrado ao seu sujeito – ser mulher, com seus valores e subjetividades. Aliadas a elas estão a camisinha feminina, a pílula do dia seguinte, o DIU, a pílula anticoncepcional. E o aborto...

O problema torna-se ainda mais grave, pois, como analisam os pesquisadores, o abortamento inseguro cria um ambiente ameaçador, de violência psicológica e de culpabilidade que leva muitas mulheres a apresentarem sintomas de depressão, ansiedade, insônia e arrependimento da escolha realizada. “O problema da gravidez não desejada deve ser enfrentado a partir de políticas públicas que reconheçam os direitos humanos reprodutivos das mulheres, que incluam os homens nessas políticas e criem nos municípios brasileiros com ações de saúde a cultura de ações de educação sexual e de atenção à anticoncepção”.

Por outro lado, interessante é notar que, contemporaneamente, podemos fazer uma série de mutilações corporais (tatuagens, piercings, silicones, próteses penianas, redução de estômago, retirada de sisos, retirada de amídalas, doação de rins, plásticas estéticas de todo tipo de órgão, amputações, depilações, escarificação e até implante de orelha no braço como vi recentemente e outras formas de bodymodification). Isso significa que a cultura do corpo tem tomado outras dimensões em nossa época. E a mulher está integrada a esse fluxo.

Segundo Domingues , o corpo “é produto e produtor do meio, nele estão inscritas as marcas bio-histórico-culturais de cada sociedade. É preciso compreender que o corpo tem uma história, é dotado de linguagem, por isso, fala e exprime seus anseios de forma bastante significativa”.

Isso pode sem dúvida gerar tensões e discussões sobre ética médica, humana, estética etc. Mas como o aborto e o papel da mulher entram nesta polêmica?

A sociedade, também, tem mudado seu conceito de reprodução biológica e social. O modelo familiar – mulher, marido, filhos – toma novas formas a partir das uniões homossexuais, das construções familiares híbridas com filhos de vários casamentos, famílias só de mulheres com avós participantes. Ou seja, a própria definição de família mudou.

Nesse sentido, a mulher vem procurando outras formas de reprodução e planejamento familiar em razão das novas tecnologias e nova visão de mundo, numa “pós-modernidade líquida, uma realidade ambígua, multiforme”, como definiu o sociólogo polonês Zygmunt Bauman e por que não dizer “descartável”.

De um lado, os métodos de reprodução assistida, inseminação artificial, proveta, barriga de aluguel, banco de esperma estão disponíveis (em maior ou menor grau) para aquelas mulheres que usam de todos os meios para atingir seu fim: engravidar.

De outro lado, resta a clandestinidade das agulhas de tricô e ingestão desmedida de Citotec. Algumas mulheres vêem a gestação como uma “invasão” de seu corpo. Outras que engravidaram “inconscientemente” quando estavam drogadas, alcoolizadas. Ou aquelas que já têm tantos filhos e sem planejamento familiar não querem mais uma gestação. São muitas as questões e conflitos que pairam nas cabeças das mulheres que optam por vários meios perigosos para se atingir um único fim: abortar.

O filósofo francês Jean-François Lyotard considerou a pós-modernidade como um tempo em que a ciência não pode ser considerada como a fonte da verdade. Se assim estamos, não há mais que se falar em condutas únicas. Por isso, o importante papel da bioética para colocar em discussão a ética da vida e as conseqüências de certas posturas para a humanidade. Discutir o que é vida, onde ela começa e quando ela termina são pautas da agenda atual.

Para tantos questionamentos, surgem infinitas teorias. “As técnicas desempenham importante papel na constituição e manutenção da sociedade do controle. Os instrumentais refinados de comunicação e informação, resultantes da terceira revolução tecnológica, enraizam-se nas subjetividades, produzem novos desejos e sensações – o pós-humano. Sobre essa base, emerge uma nova tecnologia do poder, o biopoder”, analisa Braga e Vlach

A mulher ter “direito ao aborto” é a meu ver um assunto não somente relacionado ao conceito de vida ou não do embrião/feto, mas do domínio do corpo da mulher por ela mesma. É também uma questão de poder. Há por trás do aborto muito mais subjetividades do que simplesmente “eliminar uma gravidez”.

Na sua origem, o poder biotécnico disciplinador identificado por Foucault como a forma caracteristicamente moderna do poder estava baseada em duas formas principais: “a anátomo-política do corpo humano, centrada no corpo como máquina útil e dócil, que pode ser adestrada, ampliada em suas aptidões e ‘extorquida em suas forças’ e a biopolítica das populações, centrada no ‘corpo-espécie regulável’ do ponto de vista da natalidade, mortalidade, nível de saúde e duração da vida” (Foucault, 1990, p.131).

Por fim, longe de esgotar a discussão, engravidar e abortar são questões de saúde pública que tem a mulher como protagonista e passam pela noção de poder sobre o corpo feminino.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Diálogos impossíveis

 



Cena de novela. Caminho das índias. César e Aida discutem ao telefone porque ele depositou pensão alimentícia a menos. Camila fala com Leinha:


A filha, cansada de ver a mãe discutir com o pai por causa da pensão alimentícia, chorosa pergunta à irmã:

- Por que eles não conversam civilizadamente como gente grande?

A irmã responde:

- Porque o papai não é gente grande.


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( pensando alto)

Já vi essa cena na vida real, apenas nunca pensei nesta sábia resposta. Eu na minha mania de achar que sempre o diálogo deve ser soberano, esqueço-me que, antes dele, há que se ter duas pessoas capazes e dispostas. O que raramente acontece simultaneamente. Uma pena. Dai este mundo cheio de monólogos alternados.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Balanço

Estou fechada para balanço.

Balanço de idéias.

Balanço de valores.

Balanço de crenças.

Balanço.

Estou num momento peneira.

para ver o que fica.

para ver o que foge.

para ver o que entope.

Estou dando um tempo.

No balanço da peneira...


Soll, entre calor e tempestade, Brasília, 10 de março de 2009.

Eu, acompanhada

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