17 Abril, 2006
Feriado prolongado. Aracaju. Mar. Sol. Vento. Lua Cheia. Hotel em frente à praia. Água limpa. Orla aconchegante e cuidada. Gente bonita. Beijo na boca. Sem hora pra dormir. Sem hora pra acordar. Piscina azul. Cerveja gelada. Caranguejo gordo. Livros de primeira. Papos de alto nível. Filosofia com gente interessante. Dinheiro no bolso. Paisagem fotográfica. Conforto. Comida boa. Serviço de primeira. Lençóis cheirosos. Toalhas brancas. Sono tranqüilo. Abraço apertado. Música de qualidade. Muita gargalhada. Sem telefone. Sem compromisso. Sem hora marcada. Pés descalços na areia. Ondas beijando as pernas. Lagosta na brasa. Violão ao luar. Vida leve. Assim se passaram três dias em meu pensamento.
Aviso importante:
A visualização deste blog fica melhor em computador. Todos os textos (e esboços) postados neste blog são de autoria de Solange Perpin
(Solange Pereira Pinto). Portanto, ao utilizar algum deles cite a fonte. Obrigada!
segunda-feira, 17 de abril de 2006
terça-feira, 11 de abril de 2006
Relaxando...
11 Abril, 2006
Nos próximos dias vou tirar poeira dos ombros
e mergulhar nas águas de Aracaju...
Apesar do pouquíssimo tempo que passarei por lá,
serei intensa para desfrutar os prazeres
que só a beira-mar proporciona...
uma cervejinha...
um caranguejo...
um violão à luz de prata...
Serei brindada com uma lua cheia!
O cheiro de mar...
a brisa no rosto...
e um tempo legal para a cabeça...
Nossa, parece até minha primeira vez!
A emoção de poder reencontrar na areia
o descanço prometido para uma vida
que anda prá lá de atribulada!
Lá ficarei longe da vida virtual
e bem perto da natureza concreta...
Sem orkut, sem blog e sem MSN...
Não sei se olharei mais o sol
ou as estrelas...
Não sei se tomarei mais água de coco
ou caipirinha de lima...
Não sei se lerei mais linhas
ou usarei mais fala...
Não sei de nada, e como é bom não saber!
Vou para Aracaju com a alma livre
para pular ondas e sentir o sal correr pelo corpo...
Vou para Aracaju ficar mais perto do horizonte
e mais distante de uma vida de planalto...
Vou para Aracaju descansar sob coqueiros,
e adormecer em redes de balanço...
Vou para Aracaju chegar na ponta do mapa
e do pés para ver melhor o cometa...
É gente, finalmente vou para Aracaju
e quando voltar contarei o que se passou por lá...
beijão pra todo mundo!!!
Fui....
Nos próximos dias vou tirar poeira dos ombros
e mergulhar nas águas de Aracaju...
Apesar do pouquíssimo tempo que passarei por lá,
serei intensa para desfrutar os prazeres
que só a beira-mar proporciona...
uma cervejinha...
um caranguejo...
um violão à luz de prata...
Serei brindada com uma lua cheia!
O cheiro de mar...
a brisa no rosto...
e um tempo legal para a cabeça...
Nossa, parece até minha primeira vez!
A emoção de poder reencontrar na areia
o descanço prometido para uma vida
que anda prá lá de atribulada!
Lá ficarei longe da vida virtual
e bem perto da natureza concreta...
Sem orkut, sem blog e sem MSN...
Não sei se olharei mais o sol
ou as estrelas...
Não sei se tomarei mais água de coco
ou caipirinha de lima...
Não sei se lerei mais linhas
ou usarei mais fala...
Não sei de nada, e como é bom não saber!
Vou para Aracaju com a alma livre
para pular ondas e sentir o sal correr pelo corpo...
Vou para Aracaju ficar mais perto do horizonte
e mais distante de uma vida de planalto...
Vou para Aracaju descansar sob coqueiros,
e adormecer em redes de balanço...
Vou para Aracaju chegar na ponta do mapa
e do pés para ver melhor o cometa...
É gente, finalmente vou para Aracaju
e quando voltar contarei o que se passou por lá...
beijão pra todo mundo!!!
Fui....
segunda-feira, 3 de abril de 2006
Sobre a criatividade
Acredito que toda criação exige aquecimento. Assim como para correr ou caminhar precisamos nos alongar, para escrever precisamos esticar o olhar e aquecer as idéias. Para pintar precisamos esquentar os pincéis. Para o sexo precisamos das preliminares. Então, aquecimento, concentração, acolhimento são essenciais para a criatividade. No meu caso, uma conversa me aquece para uma crônica; a leitura de um livro gostoso me aquece para a leitura de um texto mais chato ou técnico; desenhar sem compromisso, rabiscando, me aquece para a pintura de um quadro... Cada um tem sua forma de aquecimento, de alongar as idéias e o espírito. O importante é encontrar o próprio jeito de caminhar...
.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006
quarta-feira, 25 de janeiro de 2006
O que é mesmo fidelidade?
Por Solange Pereira Pinto
Lançado em 2005 pela editora Agir, o livro Amor em segredo, de Sonia Rodrigues, traz crônicas autobiográficas que revelam o olhar da escritora, filha do amor e da “infidelidade” de Nelson Rodrigues, sobre abordagens variadas do tema amor e sexo.
Na primeira parte da obra, a mais interessante na minha opinião, Sonia fala de intensidade, armadilhas, amor, infidelidade, fidelidade por obrigação, sobrevivência, cultura de segredos, família, transgressões, perversões. Enfim, discorre sobre a gama de situações que envolvem as relações e o amor entre homem e mulher e família.
A autora também repete quanto a sua vocação para a escrita e logo no segundo texto adianta “é bom sobreviver às histórias, mas o melhor mesmo é ter o que contar”... “Se as pancadas não doessem, não precisaria transformá-las em palavras, em histórias...exorcizo os tigres com a palavra. Às vezes, ganham eles. Outras, ganho eu...quando a gente sobrevive, as recordações ficam divertidas”. Amor em segredo é de leitura rápida, estrutura e linguagem simples, para quem gosta de autobiografia em forma de crônica e devaneio.
Trechos do livro:
“Não sei o que é pior. Amar muito e se machucar ou amar certo e não se machucar. Voltando ao meu pai, à minha origem apaixonada: no amor a gente não faz o que quer, faz o que pode.”
“Só isso. Amar quem a gente quer amar, trair quando trais é a única alternativa, contar histórias para sobreviver a elas.”
“Preciso menos de quem me traduza a vida. Mas ainda preciso de companheiros de versão.”
“Eu fui infiel naquela vez e, em todas as poucas vezes em que fui infiel às pessoas que amo, o fui porque minha sobrevivência estava ameaçada.”
“Compreender que, na prática do amor, é impossível seguir modelos. Comprovar que a fidelidade não depende da gente, e simj da pessoa amada. Reconhecer que a fidelidade por obrigação é uma virtude vil. É indigno, é vil ser fiel a quem nos trai, a quem não nos ama como achamos que merecemos ser amados. Por isso, me espanta quando as pessoas acreditam que podem amar mal e ser poupadas. Não são. Essas pessoas se enganam. Por trás, na surdina, as esposas, os maridos, os filhos, os amigos estão se vingando do desamor”.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2006
Livro bom!
O velho que acordou menino (Ed. Planeta, 2005), de Rubem Alves, narrando memórias de sua infância, esclarece uma série de costumes que repetimos sem saber ao certo de onde vieram. Assim como ele não sabia a origem de muita coisa que "era como era", nós vamos incorporando hábitos sem perceber quantos antes já os viveram.
Ele reconta Minas Gerais, a maria-fumaça, o urinol, o fogão à lenha, o alpendre, o porão, os escorpiões, as jaboticabeiras, as praças,o telefone à manivela, velórios, casamentos arranjados, os brinquedos artesanais inventados, o silêncio entre pais e filhos, a submissão feminina, a igreja e outros adereços que montam uma paisagem singular, de fotografias da memória, com a sempre surpreendente e simples linguagem, tão peculiar de suas crônicas.
São inúmeras as reflexões. O livro traz a tona a sensação do quanto iguais são nossos medos, nossos sonhos, nossas dores. É mais que um testemunho de vida, é a sua cumplicidade com ela.
"É curto o caminho que vai dos sonhos a algum terreno baldio escuro..."
"Por isso eu me senti sempre órfão. Não tinha com quem falar sobre as minhas dores.
Se eu as trouxesse a ele minhas dores, meu pai não saberia acolhê-las.
Seria doloroso demais. Para ele. Ele era fraco. Empunhava sua vara de condão e minhas
dores se transformavam em risos. Para ele. Mas em mim elas continuavam a dore. Fui sempre sozinho."
"Quando jogamos conversa fora voltamos a ser crianças: soprando bolhas com palavras, bolhas que serão logo esquecidas".
terça-feira, 3 de janeiro de 2006
Filme do mês
Quem somos nós?
Questões se desenvolvem sobre o conceito de Deus e sobre a construção do que é ou não real na vida de nós humanos. Percebendo a ciência que na atualidade o vácuo obtém uma dimensão quase suprema, e por sermos simples compostos de carbono e 90% de água, que a matéria é algo por dizer intangível, que nesse sentido velhos paradigmas terão que ser rompidos para que a existência assuma novo lugar.
Apresenta que o cérebro humano, por meio de suas sinapses, fará conexões variadas a partir das inúmeras experiências vividas pelo consciente, pelas escolhas individuais, e que vícios emocionais serão condutores de outras escolhas, das próximas buscas. Dita que as emoções somos nós e que nós somos as emoções, simplificando emoção é vida.
A proposta é que se modifique o modo de “olhar” e de construir experiências para que o bioquímico que compõe o ser humano não mais necessite de velhos padrões de acontecimentos e relações, ou seja, que tenha a partir daí a condição de criar novas realidades, para sair do vício.Positivamente, o filme questiona, filosoficamente, que as verdades são relativas, vez que são “permanentes” em cada momento histórico da humanidade.
Outro ponto de destaque é remeter ao ser humano a responsabilidade para própria condição terrena, para sua sorte ou revez, sem imputar tão somente a um ser superior a capacidade de lançar ou reverter os infortúnios.
O homem deve assim assumir que é o gerador de suas lástimas e venturas a partir da própria construção mental, da qual o pensamento dá corpo à realidade em que vive, e suas escolhas traçam as conseqüências de suas atitudes.
O ser humano torna-se o Deus do próprio destino, fazendo parte de uma natureza plena, de uma unidade maior, na qual não existe um ser à parte ou afastado de si mesmo, como conceituam várias religiões acerca de Deus.
Para os mais céticos, ou quem sabe para os mais crédulos, diria que essa é a tendência da verdade da era em que vivemos, seja pela história ou pelos experimentos que fomos capazes de desenvolver até este século XXI.Resumindo, o mundo tem várias formas de realidade em potencial, até você escolher a que quer.
domingo, 25 de dezembro de 2005
Autoeu
Autoeu
Na palheta escolho a face
humor lilás
dor marron
alegria amarela
tristeza neon
Em arco-íris
levitam pensamentos
dos negros aos incolores
dos ácidos aos indolores
Na palheta escolho a face
das tintas tão misturadas
dentro de mim.
domingo, 11 de dezembro de 2005
Sobreviventes
Para Vinícius de Moraes
Disformes, nascemos. Nus.
A caixinha de música, repetitiva a embalar sonos. Arregalantes novidades diárias a encher berços.
Tecidos enrolados esperando a tesoura social. Em cortes moldados vamos crescendo.A máquina do pensamento bordando minuto a minuto. Vamos nos convertendo. Tornando letras, números, nomes.
Com o tempo surgem os recortes, as passamanarias, os galões, as borlas.Transformamo-nos em adornos a serem apreciados. Sol a sol as melhores vestes. Emoções e instintos represados, no alinhavo. Na marca do giz.
No patchwork cotidiano, um dia nos descobrimos trapos. Pedaços de nós se amontoando nos varais da existência. Partes de outros se enviesando em nossas costuras.
O pânico de ver, ou mostrar, a alma desnuda, encardida, mal acabada. Com agulha e linha passamos os dias a emendar e remendar buracos, fissuras. A sedução para encontrar a armadilha, a aceitação. Pessoas rotas caminhando sem suas rotas.
Na melancolia da lua, na noite se encontram os avessos. Bailando na corda bamba...vai...vai...vai...Lá estão... os amantes impulsivos. Os artistas instintivos. Os neuróticos assumidos.
A dor da lucidez buscando regalo na embriaguez. Almas descosturadas, puídas pela sensibilidade. A compulsão de amar. A poesia. A paixão. O prazer.
Esfarrapados de desejos desfilando na boemia.
Ah, Vinícius...Ah, sensata insensatez...
As contradições. O caos. A ambivalência. O conflito. Reconhecer que os botões podem se soltar. O zirzimento se abrir. O viés desenviesar. Ver que a segurança é falsa sensação.
As linhas velhas. Tecelagens finas. Costuras toscas. Aceitar-se rasgado para, imediatamente, viver.
Os aspectos sombrios. A carne viva. A consciência aguda. Vão caminhando corajosamente os maltrapilhos da razão.
Quem costura agora é a engenhoca dos sentimentos. Juntando retalhos, tecendo coloridos mantos de emoções. A espontaneidade do alfaiate de vida transbordante.Somos a matéria com que são feitos os sonhos.
A sensação de impotência insistindo em nos manter vivos. A impulsão da vida. A pulsão da morte. É preciso, mais que talento, permanente inquietude para desnudar a alma e revelar-se um trapo humano na melhor tradução de amor e poesia.
quarta-feira, 12 de outubro de 2005
Feliz dia das crianças!
e a dica de hoje é: leiam o sensacional Bartolomeu Campos de Queirós!!!!
Sua linguagem é envolvente, poética e com várias imagens para carregar o pensamento e o coração para além daqui.
Encontrar o Bartolomeu remexeu meu baú de verdades da infância e me deixou com gosto de pirulito colorido a vontade de escrever cada vez mais e ler, ler, ler.
Sua linguagem é envolvente, poética e com várias imagens para carregar o pensamento e o coração para além daqui.
Encontrar o Bartolomeu remexeu meu baú de verdades da infância e me deixou com gosto de pirulito colorido a vontade de escrever cada vez mais e ler, ler, ler.
Dica 1: "O olho de vidro do meu avô", Editora Moderna. São Paulo, 2004. A história é imperdível, baseada em fatos reais vividos pelo autor e por seu avô.
Trecho: "A casa de meu avô era silenciosa. Todas as palavras tinham sido ditas. Nada mais mudava do lugar. Mesmo no escuro se podia encontrar uma agulha na gaveta do criado que também era mudo. Uma casa sem palavras é uma casa vazia. Palavra povoa tudo. Corta o silêncio e, aonde chega, fica. Se a gente escreve, pode apagar, mas, se falamos, fica impossível recolher as palavras. Palavra é como borboleta, bate as asas e voa. Palavra não nasce em árvore, ela brota no coração. A gente sabe que ela tem cor, porém cada uma guarda uma ilusão. No alpendre da casa do meu avô havia três borboletas presas na parede. Suas asas eram de louça dura. Elas não partiam. Para voar é preciso asas leves e muito vazio pela frente. Para falar é preciso ter o que dizer".
Trecho: "A casa de meu avô era silenciosa. Todas as palavras tinham sido ditas. Nada mais mudava do lugar. Mesmo no escuro se podia encontrar uma agulha na gaveta do criado que também era mudo. Uma casa sem palavras é uma casa vazia. Palavra povoa tudo. Corta o silêncio e, aonde chega, fica. Se a gente escreve, pode apagar, mas, se falamos, fica impossível recolher as palavras. Palavra é como borboleta, bate as asas e voa. Palavra não nasce em árvore, ela brota no coração. A gente sabe que ela tem cor, porém cada uma guarda uma ilusão. No alpendre da casa do meu avô havia três borboletas presas na parede. Suas asas eram de louça dura. Elas não partiam. Para voar é preciso asas leves e muito vazio pela frente. Para falar é preciso ter o que dizer".
Dica 2: "Onde tem bruxa tem fada...", Editora Moderna. São Paulo, 2002. Este é para a criança que todos nós guardamos e teimamos em sufocar.
Trecho: "A fada compreendeu por era importante, para os mágicos, os meninos terem esperança. A esperança é uma coisa que sempre espera e nada faz...A fada não entendeu nada. Era a primeira vez que escutava um adulto. Apenas pensou: 'são mágicos e ainda falam uma outra língua'."
Trecho: "A fada compreendeu por era importante, para os mágicos, os meninos terem esperança. A esperança é uma coisa que sempre espera e nada faz...A fada não entendeu nada. Era a primeira vez que escutava um adulto. Apenas pensou: 'são mágicos e ainda falam uma outra língua'."
terça-feira, 6 de setembro de 2005
Um frango às cinco
Tem dias que começam sempre iguais. Levantar cedo. Levar criança na escola. Ir para o trabalho. Hoje é terça-feira. Setembro. Quente. Seco. A paisagem meio cinzenta. Muitas folhas pelo chão. Já é quase primavera. O país também caminha meio cor de chumbo. Uma crise política de estrelas vermelhas. Meio dor. Meio sangue. Meio tomate. Um momento meio. Meio até estranho. Verdades ao meio. Mentiras ao meio. Partidos ao meio. Mas a minha manhã começou em ponto. Às sete. Nem mais. Nem menos. Depois das mochilas e lancheiras, rumei à faculdade. As alunas à espera da aula de TIC's. O sono ainda se encostava em meu corpo. Nem banho gelado. Nem agenda cheia. Lá vinha ele amolescente, me perseguindo. Trânsito louco. Tocando em frente no rádio. Chego na sala, surpresa: uma palestrante no meu lugar! Todos os alunos do curso no auditório ouvindo sobre alfabetização. Ninguém me avisou. Lá estava eu. Meio professora, meio ouvinte, meio perdida. A coordenadora me dispensou. Voltei. Trânsito menos louco. No som o bêbado e a equilibrista. O dia prometia. Visitei uma amiga, um papo meio na pressa e voltei à realidade. Peguei a filha na escola. Engoli o almoço. Corri para a loja para bolar mais uma vitrine. Pensei em algo meio rústico. Meio renda. Meio bege. Meio branco. Na CPI do Congresso Nacional deputados meio cassados se defendendo meio pálidos. Meio confiantes. Meio exultantes. Eram três horas quando entrei no supermercado. Massas. Molhos. Arroz. Feijão. Biscoito. Leite condensado. Pipoca. Pizza, fiquei em dúvida. Um tanto comum. Congelada demais. Na esteira do caixa ao lado, uma mulher e dois frangos assados. Hummm. Cheirando quente o sabor da pele torrada. Moço, vá passando as compras. Volto já. Corri peguei um frango. Paguei tudo. Pedi que entregassem os volumes em domicílio. Entrei no carro. Trânsito calmo. A música era Cio da Terra. A tarde caía terrena. Fértil. Alaranjada. Cheguei às quatro e meia, com o assado nas mãos. Esse eu mesma quis levar. Assim como o pão e a manteiga. Abro a porta. Ninguém em casa. Com os desejos salivantes arranco o frango da sacola. Agarro suas asas e escuto. Purullummpurummpullurumm. Era o computador ligado desde cedo. O messenger apitando. Feito peru perto da ceia. Aquele desejo de comemorar. Em azul a janelinha piscava. Meu coração palpitava. Sento-me em frente à tela. Em arte surge alguém esperado. Teclo para um oi. Mordo a primeira asa. As palavras carinhosas começam a deslizar pelo monitor. O gosto do frango aplacando a vontade. A fome. Os dedos lambidos. Os olhos sorrindo. A outra asa me provocando. Parto pra cima dela como quem sonha acordado. Vou degustando palavras. Vou me deliciando com a pele. Às cinco da tarde. O mundo pára. A realidade apaga. Tudo que estava ao meio, inteiro fica. No meio desta crônica o entregador chega. Atendo. Volto. O frango partido. O Brasil também. A fantasia correndo. Nas asas, vou. Vôo. O dia não terminaria igual. Mas, quem disse que tudo tem que terminar igual...em pizza...ao meio...melhor devorar um frango assado às cinco da tarde em plena terça-feira...o verão está chegando...
domingo, 14 de agosto de 2005
Budapeste – Chico Buarque*
Por Solange Pereira Pinto Visitar “Budapeste” pelos olhos verdes de Chico Buarque, que lá mesmo dizem nunca esteve, mais que uma viagem por sua fantasia é um encontro com o princípio de vida de um escritor; não somente do escritor autor ou do protagonista ghost writer, ora José Costa, ora Zsoze Kósta, mas com a necessidade de um princípio de unificação de qualquer escritor com sua escritura. Debruçar nas 174 páginas, envolvidas por uma capa ocre de letras espelhadas, faz o relógio parar, o tempo repetir. A linguagem fluida, e muito bem construída, como é a marca do poeta-músico-trovador, conduz pela aparência simples aos intricados pensamentos e labirintos de aspirações. Num rompente diria que a trama de Budapeste, que não intenciona mostrar a capital húngara, tão somente a aura de um cenário estrangeiro que se alterna com a conhecida paisagem carioca, para abrigar as incertezas de José Costa em ficar no Brasil, divertindo-se na própria língua, ou de partir para conhecer o magiar o transformará em Zsoze Kósta, revela o sentimento solitário de um escritor que ao narrar acontecimentos de vidas alheias descreve a própria existência; que ao emprestar suas palavras ao desejo e vaidade de um interlocutor que lhe contrata - para possuir uma voz que não lhe pertence – transforma-o em si mesmo e vice-versa. A mistura de identidades, a falta destas. Entre passagens de um amor a o outro, de uma necessidade a outra, mostra a resignação, do escritor fantasma, pela fama do anonimato que lhe dá sustento e pela libertação que contém uma inquietação, embora dita por um autor inventado, que prefere o renome, comum a quem se esconde, a quem se promove e a quem só a escuta. A história revela que há um fio costurando todos a uma mesma vida que sobrevive de uma mixagem de palavras, fantasias e linguagens. Aponta um fruto que é suculento de mastigar em qualquer tempo e que o sabor não se esvai por já ter sido mastigado, e nem importa por quem, mas porque o gosto continua a se perpertuar da fonte, para quem colhe ou cria, do ser humano que não se esgota em produzir palavras, inventar linguagens, em se comunicar para se distinguir, e em acreditar na sua natureza crescente, progressiva, que leva à evolução da espécie; fazendo-se imortal em páginas, páginas e páginas, não interessando muito quem seja o autor, pois sempre, na essência será ele mesmo – o Homem - e sua complexidade – razão, inteligência, sentimento e emoção humana – o que finalmente iguala ilustres e desconhecidos que buscam a si mesmos em suas histórias de vidas inventadas, assim como é. *Romance Budapeste, Chico Buarque Companhia das Letras 2003, 174 pgs, R$ 30,00 |
segunda-feira, 21 de abril de 2003
O que JK não viu ou não contou

21 abril, 2003
A cidade planejada não comporta em si apenas os erros estruturais de sua dimensão física prejudicada pelo crescimento desordenado, mas esconde em suas tesourinhas, entrequadras, eixos e viadutos a cultura extrativista da terra de ninguém, nascida bem antes dessa jovem de 43 anos. Aqui, no marco de Dom Bosco, a profecia não evitou que o sino da catedral naufragasse três vezes. Seria um sinal dos tempos vindouros?
Era domingo, na véspera do aniversário da criticada e amada Brasília que as duas mulheres resolveram discutir. Afinal, quem pagaria aquela conta? O aluguel mais caro do país venceria dali três dias.
- Mas nhônhô, talvez não soubesse que ao fazer nascer a capital federal no centro do país, construiria não só uma cidade moderna e estética, mas um local onde mais que a visibilidade política é o sumiço do dinheiro o fio condutor do seu cartão postal, argumentou a mais velha.
- Ah, tá bom. A vida é que é cara mesmo, afinal estamos longe de tudo. Ou você acha que frete pelas esburacadas estradas brasileiras é barato?
- Não é disso que estou falando. O custo de vida aqui é caro por causa da corrupção. Não há renda suficiente para se manter nessa cidade, por exemplo, uma loja de grife que nem São Paulo tem.
- Como não? E a concentração de altos salários do legislativo e do judiciário? Isso não dá uma condição de vida melhor que em outras cidades?
- Não, pois é uma minoria que recebe bons salários e além disso há teto. Além do mais aqui não há indústria. Aliás, esqueci da indústria da grilagem de terras públicas.
- Ah, ah, ah! Sem cinismo. Faças as contas: some os ganhos de, todos os ministros de tribunais, desembargadores, juízes, promotores, procuradores, deputados, senadores, cargos comissionados, empresários da construção civil, donos de imobiliárias, empresários do ensino particular, etc...
- Ainda assim não se justifica. A elite é uma minoria aqui. O dinheiro que circula para justificar apartamentos luxuosos e caríssimos, consumo de produtos finos e de marca, carros importados para todo lado, lanchas, festas glamourosas e ostentações variadas, não vem de salários...
- Ok. E o pessoal que veio para cá quando a cidade ainda estava começando, você não acha que teve a oportunidade de construir um belo patrimônio que lhe rende?
- Esses também são poucos. Imagine que nas grandes cidades do sudeste há muito mais gente rica, turismo, empresas, lazer, restaurantes, enfim, e a vida não é tão cara quanto aqui.
- Claro, lá também há muito mais exploração da mão de obra. Veja bem, aqui um assalariado concursado de nível médio pode ganhar cerca de três mil reais. Onde mais servidor público ganha tão bem? Não se esqueça que nossa cidade reúne os três poderes e todos os tribunais superiores.
- Pode até ser. Mas o preço que pagamos para viver aqui tem outras causas.
- Você insiste nisso, né? E os apartamentos funcionais vendidos a preço de banana para servidores de várias categorias? Quando um motorista de outra cidade compraria um bom apartamento em uma quadra nobre? Além do mais, ele poderá vendê-lo agora e comprar dois na sua cidade de origem. Outro ponto, quantos filhos de porteiros, como os daqueles que trabalham no plano piloto, podem estudar na escola classe perto de casa, conviver com os filhos dos condôminos classe média e mudar totalmente o destino familiar? Em quais cidades grandes ou não, por aí, se tem essa oportunidade de formar uma vizinhança harmônica?
- Até parece que em Brasília as pessoas são hospitaleiras e tão caridosas como você fala. O que vejo é uma individualidade terrível, um salve-se quem puder, e creches com mensalidades de quatrocentos reais.
- Mas quando a gente fala sobre a cultura de um lugar, devemos observar como ela foi construída, o que foi importante e o que interferiu nessa edificação. Essa cidade atraiu muita gente de fora, e ainda atraí mesmo com todas as dificuldades. Aqui sempre teve subsídio e incentivo. É normal que a capital de um país seja diferente das outras, afinal o poder mora aqui.
- É exatamente disso que estou falando. O custo de vida aqui é abusivo porque o dinheiro é fácil e a vista grossa!
- Explique-se melhor...
- Quem não sabe que as grandes licitações daqui são direcionadas? Que há formação de cartéis e que os donos de quase tudo são os mesmos? Que o sobrenomes abrem portas e engavetam processos? Que o dinheiro público é quem manda nessa cidade? Que os privilégios de uns aumentam os custos dos outros? Que existem comércios de lavagem de dinheiro? Que pessoas jurídicas vendem notas fiscais? Que se trocam favores e nomeações? Posso desfilar um rol de porquês por toda a noite...
- E por que você ainda vive aqui, sabendo de tudo isso?
Oh, brasiliense nativo, nesta terra de clichês, algures há orgulho para sentir! Alguém há de tomar conta desse berço esplêndido! Muitos já passaram por aqui e outros nem pensam em sumir. Jânio vassourinha, renunciou. Jango olhou. Castelo ditou. Costa e Silva morreu. Brasil, ame-o ou deixe-o, quem irá esquecer? Ainda tem os três patetas de outra era. A tortura de Médice. O tempo de Geisel. A escolha de Figueiredo. A volta de Aluísio cassado por corrupção, o governo Sarney. O pode tudo. O Collor da fábula dos marajás. Itamar sei lá entende. FHC do bingo da estatais, Sivan, BNDES. E, agora Silva? Lula, apavorado!, tudo parou.
As duas mulheres saudaram seu Antônio, entraram no elevador e se esqueceram de decidir quem pagaria o aluguel da quitinete de seiscentos
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