Aviso importante:

A visualização deste blog fica melhor em computador. Todos os textos (e esboços) postados neste blog são de autoria de Solange Perpin
(Solange Pereira Pinto). Portanto, ao utilizar algum deles cite a fonte. Obrigada!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O caso Tessália

Miopia semiótica

por @solangewww



Não fico surpresa.

A Tessália do BBB 10 é a mesma do Twitter.

Mas de musa à bruxa, o que mudou?

Nada, ou quase nada.

Quem de fato se transformou foi o leitor, que agora é um "olhador", ou melhor dizendo na linguagem televisiva: um expectador - que realmente cria expectativas.

Em uma tela, que se relaciona conosco privadamente, a dois (o monitor e o usuário), ao lermos as palavras estáticas (twittadas em 140 caracteres), que foram - antes - racionalmente escolhidas e escritas por seu autor (no caso a @Twittess), damos a elas os contornos pertencentes a nós mesmos.

Durante a interpretação da palavra impressa, preenchemos também as entrelinhas com a nossa imaginação, ilusão, desejos, leitura de mundo, repertório, cultura, preconceitos etc.

As palavras crescem! Se estamos tristes, lemos com um tom. Se estamos com raiva, lemos o mesmo com outro tom, e por ai vai.

Porém, a vida editada, em imagens e vídeos, da Tessália no BBB, da Rede Globo, é apenas um tanto mais pobre que a nossa imaginação (sem limites que se transfere livre para os textos escritos) e, por outro lado, assistimos à seleção feita por outra pessoa que também faz suas escolhas e leituras.

Quem já leu um livro e, depois, viu um filme baseado no texto, sabe bem o quanto o livro é melhor (pelo menos eu acho).

No caso da Tessália, as "críticas" (algumas bem ridículas e preconceituosas) divulgadas sobre ela ser calculista, jogadora, pensar em si mesma, "falar mal" ou implicar com outras mulheres ou ser dissimulada não são nada distantes das características da Twittess, que usou de marketing, estratégia, jogo, ego e, principalmente, inteligência para se estabelecer (vender?) na internet e, óbvio, por pensar em si mesma. Ou o mundo virtual (e real) está lotado de altruístas?

Tessália é jovem, interação e dinheiro, e fama, é claro. Como poderia dizer o twitteiro @hugogloss ela é a cara da juventude do século XXI. Além disso, ela é publicitária e internauta. Ela é da Geração Y e da "web 2.1", como se ela mesma define.

Ela sabe onde está.

Eu, particularmente, não vejo nada de diferente ou incoerente nas duas versões Tessália: a virtual e a televisiva.

Talvez a Tessália filha, amiga, mãe seja outra. Ou não. Talvez nem ela tenha a consciência exata do seu potencial de construir imagens. Amada no twitter, odiada no BBB. Isso é talento.

Enfim, a garota mais amada do twitter antes do BBB 10 e quase a mais odiada nele mesmo depois da TV, cresceu em expectativas. Esperavam uma Twittess e encontraram outra.

Pura miopia semiótica. Há várias Twittess e várias Tessálias e cada um carrega em si aquela (s) em que mais deseja acreditar.

Afinal, enxergamos as imagens que outros compuseram ou aquelas que neles projetamos?

por Solange Pereira Pinto 


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NOTÍCIAS (acima comentadas)
Movimento contra Tessália cresce na web

28/1/2010 - 16h54


Ela foi pivô de uma traição em rede nacional ao ficar com Michel, que tinha namorada. Passa o dia praticamente isolada, e não participa das brincadeiras dos brothers. Fala o tempo todo sobre jogo. Ofereceu-se como parceira de Dourado caso ele quisesse combinar votos. Gastou suas estalecas em um jantar japonês, enquanto os outros brothers usaram o dinheiro para compras de primeira necessidade. Critica as mulheres da casa, principalmente seu alvo preferido, Fernanda. Será que o comportamento de Tessália a está transformando na vilã do BBB10?

Se depender da internet, o título é dela e ninguém tasca. A curitibana tem sido citada com adjetivos nada amigáveis em fóruns virtuais sobre o reality show. Fria, calculista e dissimulada são alguns deles. Mas o grande movimento tem ocorrido no Twitter, onde o perfil “Fora Tessália” foi criado.

Os internautas também estão disseminando uma espécie de “Tessália facts” com frases negativas sobre a publicitária: é o chamado “Tessália serve para tudo”, onde se acrescenta o nome da sister em ditados populares. Como por exemplo: “A Tessália é um prato que se come frio”, “Quem não tem cão caça com Tessália”, ''Amigos, amigos, Tessálias à parte'' e “A Tessália é inimiga da perfeição”.

Músicas também estão sendo citadas: “Tessália veneno, o mundo é pequeno demais pra nós dois” ou “E vai descendo na boquinha da Tessália... é na boca da Tessália!!!”. Nem versos da literatura brasileira ficaram de fora: ''Minha terra tem Tessália, onde canta o saBial'' (sobrou até para Pedro Bial!).

Os bordões de Dona Florinda e Kiko, personagens do programa infantil mexicano ''Chaves'', também entraram na brincadeira: ''Vamos, tesouro. Não se misture com essa Tessália''. ''Sim, mamãe. Tessália. Tessália!''. E a criatividade dos internautas segue sem limites.

Nesta quinta, 28, o tópico ''Tessália serve pra tudo'' alcançou as primeiras posições no microblog no Brasil. Para quem era a musa do Twitter, muita coisa mudou depois do BBB...



Mãe prefere não comentar



Procurada pelo EGO, a mãe de Tessália, Regina, tem tentado se manter longe dos comentários maldosos envolvendo a filha. ''Estou sabendo por alto disso tudo. Prefiro não comentar, não vai adiantar eu ficar falando aqui. Melhor esperar ela sair da casa e conversar com ela'', disse Regina.

Fonte: por Barbara Duffles - G1




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Twittess e redes sociais: uma entrevista com Tessália Serighelli

10jun
2009


Quem é esta moça que de uma hora para outra tornou-se uma das pessoas mais conhecidas na Twittosfera em Português. É o que você vai descobrir na entrevista que realizei com @twittess, ou melhor, Tessália Serighelli, através do gTalk. Nesta conversa franca (ela pediu apenas que não se falasse sobre scripts de adição automática de pessoas no Twitter), você saberá o que Tess pensa sobre o Twitter, publicidade e sobre as críticas que recebe de blogueiros de renome nacional.

Alex Primo: Tess, você ficou conhecida na twittosfera quase que instantaneamente. Contudo, pouco se sabe sobre você. Por favor, fale um pouco sobre você, o que faz, e onde é, etc.

Tess: Eu nasci em Curitiba, e fui criada aqui, na terra do frio! Meus pais são professores.. Minha familia toda é, na verdade. Depois de terminar o Ensino Medio, fui conhecer outras cidades. Morei em São Paulo e Brasília, trabalhei principalmente com fotografia nesses lugares. Fiz um semestre de faculdade em cada lugar.. Publicidade, Jornalismo, Moda foram alguns dos cursos que estudei, mas sem concluir nenhum. Hoje estou de volta a Curitiba, moro com minha filha, a Valentina, que tem 4 anos. E pretendo mudar de cidade novamelte, até o fim do ano.



Alex Primo: Essa mudança de cidade se deve ao fato de você ter se tornado bastante conhecida na internet?


Tess: Não. isso tudo foi antes. tem mais a ver com minha vontade de conhecer pessoas e culturas diferentes. Sociedades diferentes.. A diversidade brasileira.


Alex Primo: Celebridade é um conceito da mídia de massa. Em redes sociais online, por outro lado, falamos de reputação e autoridade. Por outro lado, muitos tem considerado você uma celebridade do Twitter. Como você vê esse comentário?


Tess: Não me preocupo com a nomenclatura. Até porque, o conceito que tenho de celebridade de maneira alguma se encaixa no que eu me vejo. Mas não podemos negar, que o twitter é usado por milhares de pessoas. É ferramenta de pesquisa, de análise social, de comunicação , por que não, em massa também. O twitter pode ser comunicação dirigida, mas também pode influenciar muitos, em diferentes classes, nichos, sociedades, cidades... Eu não me preocupo com o que decidem me chamar. Celebridade, rainha do twitter, esses nomes nada mais são que comparáveis aos apelidos que recebemos no colégio. Ou vocie aceita e se diverte, ou fica brabo e aumenta a repercussão. :)


Alex Primo: Até o momento você tinha uma participação ativa em comunidades no orkut sobre redação publicitária. Mas você era desconhecida entre blogueiros. Quando e por que decidiu construir uma vultosa rede de seguidores no Twitter?


Tess: Nunca tive um blog. Meu interesse sempre foi em conversar, trocar opniões, e não apenas "falar". Era a impressão que eu tinha dos blogs na época. E, sim, anteriormente os blogs eram tão unilaterais quanto redes de notícias. Por isso o twitter, quando decidi entrar realemente, me pareceu parfeito para a idéia que tenho de interação. No twitter eu passo as notícias, os links que filtro, e acho interessantes, mas também recebo muito de volta. Existe o feedback, em tempo real. E talvez, por eu já estar tão adaptada no meu modo de vida, mesmo sem existir twitter eu já "twittava" com meus amigos, por msn, e-mail, gtalk, etc.. Ele foi apenas uma ferramenta de optimização do que eu já fazia. O sucesso veio pela fácil adaptação.


Alex Primo: Existe hoje um grande furor sobre o Twitter. O que esse serviço tem lhe oferecido em retorno?


Tess: A opinião de milhares de pessoas.


Alex Primo: O Twitter tem alguma vinculação com seu trabalho? Em tempo, fale um pouco sobre sua atuação profissional no momento.


Tess: Trabalho como assistente de fotógrafa aqui em Curitiba. Mas também sou cool hunter independente. Claro, pra minha segunda atuação o twitter é bem fundamental. Mas costumo usar a ferramenta mais para diversão do que para trabalho.


Alex Primo: Como o Twitter tem lhe ajudado na atividade de cool hunter. Fale mais um pouco sobre essa profissão.


Tess: Eu uso para analisar tendências, mas não só o twitter, a internet é uma boa fonte para isso. E compartilho com meus seguidores o que acho que é do interesse deles. Nåo publico tudo, porque faco análise dos posts que são mais clicados e que tem maior relevância, então, não repito o mesmo assunto se não é algo que quem me segue quer ler.



Alex Primo: Você publica uma grande quantidade de links. Como é seu processo de seleção? Além disso, diga quanto tempo você permanece online por dia e por quê?



Tess: primeiramente, seleciono o que eu gostaria de ler. Depois, o que é relevante, de alguma maneira. E por fim, vejo o histórico 9na verdade já meio que sei de cor) do que é de maior interesse.


Tess: Meu tempo online depende muito. Mas no mínimo 2h por dia.



Alex Primo: Você comentou que usa o Twitter para se comunicar, compartilhar links e ouvir a resposta de milhares de pessoas. Mas por que trabalhou para conquistar dezenas de milhares de seguidores? Fale mais sobre como se deu esse processo.



Tess: Bem, eu sigo de volta quem me segue. Com isso, não encho minha timeline com respostas, posso responder por direct messenges, e posso responder a todos.

Tess: Com isso, tenho um canal aberto, consigo falar e ter a resposta. Consigo engater uma conversa mais produtiva, mais demorada.



Alex Primo: Há um interesse normal de agências por líderes de opinião. Isso não seria diferente na internet. Recentemente você comentou uma promoção de uma marca de lingeries. Tratava-se de um tweet pago? A sua popularidade tem lhe oferecido contratos publicitários?



Tess: Não tenho nenhum contrato publicitário. O que posto é por fazer parcerias com sites que são de interesse dos meus seguidores. Eu costumo dar RT em promoções e oportunidades mesmo sem que a pessoa que twittou tenha pedido :) Se é interessante, eu posto.



Alex Primo: Confesso que não vejo problema algum na contratação de blogueiros e twitteiros para promoverem produtos, desde que tal parceria fique clara. O que pensa sobre isso? E você está aberta a contratos publicitários que possam aproveitar o alcance de suas mensagens, tendo em vista o número de seguidores que você tem?



Tess: Sendo pertinente para meus seguidores, não vejo problema.



Alex Primo: Até o momento seus mais de 40 mil seguidores não lhe renderam nenhum benefício publicitário?



Tess: Não.



Alex Primo: Tess, você nos mostrou que não apenas a mídia de massa tem o poder de catapultar personalidades ao reconhecimento público. Do anonimato você saltou para a Playboy. Como você é da área da Comunicação, gostaria muito de ouvir seus comentários sobre isso.



Tess: Bem Alex, agora você pode dar um ctrl+c ctrl+v sobre "como os tempos mudaram e nós temos o poder nas mãos.. Os blogs são tão acessados quanto grandes portais de notícias, e até mesmo atribuídos a eles mais confiabilidade do que a ações publicitárias e repostagens jornalísticas.". A gente já sabe de tudo isso. E não porque lemos, estudamos, pesquisamos. Mas porque somos geração Y, nascemos na era digital, vivemos disso. Não importa mais como era "antes". Nós é quem mandamos agora. No que queremos ver, ouvir, falar. Como, quando, onde. Ou há uma adaptação, ou há perda de audiência. Se o twitter brasileiro coloca uma garota anônima como a mais seguida do Brasil, não somente atribui alguma relevância a ela como formadora de opnião, algo que na realidade, não difere muito do formato anterior, mas principalmente, mostra um direcionamento de poder voltado à audiência, ao receptor, e não mais ao emissor. O meio é nosso. Cabe aos emissores adequarem a mensagem.



Alex Primo: O blog de Gabriela Rolim lançou uma campanha para você posar na Playboy. Você a conhece? E como reagirá se esse convite chegar? Isso seria importante para você?



Tess: Conheço a Gaby pelo twitter. Ela é uma garota bem querida :) Imagino que essa "campanha" é mais como uma brincadeira. :) Eu sou de falar, não sou de mostrar ;)



Alex Primo: Quantas vezes em média uma mensagem sua é retweetada?



Tess: Depende muito. Do dia, do assunto. Vocie pode conferir pelo migre.me. Mas a média é de 500 cliques. RT varia muito.



Alex Primo: Você tem recebido muitas críticas em blogs, podcasts e no Twitter. Principalmente de blogueiros que estão há anos atuando na rede. A que você justifica tais críticas?



Tess: Mesmo dentro da "nova" web 2.0 já é possível perceber um antes e depois. Alguns blogueiros estão acostumados com o antes. Eles apareceram numa época comparada à uma pós ditadura. Uma época em que criar um blog era quase um ato de rebeldia, uma afronta ao poder centralizado da informacão pelos grandes jornais. Foram os precessores, os desbravadores, os iniciantes :) Era uma época em que era necessário ser mais rígido, mais ríspido, combater algo. Formaram legiões de fãs, e conseguiram um público fiel. Bem, como todo bom porquinho que chega a poder, que se preze, agora eles ficam assustados com uma nova era, dentro de uma mesma era 2.0. É uma nova revolução. Eles tentam se adaptar ao microblog, mas estranhamente, seus seguidores são apenas os que migraram de seus blogs para o twitter. :) Eles não tem novos seguidores. Seus números não crescem. Eles não fazem sucesso na nova mídia. Eles são uma adaptação, e como foram os primeiros portais de notícias e jornais, que apenas adaptavam o conteúdo. Eles nasceram no 2.0, mas esta é a 2.1. Aqui, mais do que gorjear, vale mais quem consegue que a mensagem seja uma troca. Refletida, repassada, repercutindo e, como num boomerang, voltando mais forte, com mais opniões e impressões.



Alex Primo: Você se tornou conhecida pelas dezenas de seguidores que conquistou. Esse número vultuoso lhe trouxe ainda mais seguidores. Um fenômeno conhecido na teoria das redes como "os ricos ficam mais ricos". O seu sucesso na rede pode ser justificado apenas pelo número de pessoas que assinam seu Twitter? O que podemos esperar da Tess daqui para frente?



Tess: Bem, acredito que esse dito "sucesso" tenha a ver com o numero de seguidores também. Mas não apenas por isso. Aqueles que tomaram um tempo para receber minhas mensagens, acabam por hora creditando relevância. Não é apenas por uma twittada que você define toda o potencial "twittico"(hehe) de um usuário do twitter. E sim por uma rede de relacionamento, que demanda tempo, conversa, troca de informações. Aqueles que se permitiram experimentar, e não apenas se deixar levar por opniões alheias, em maior parte, continuam a seguir. A prova disso é que nunca tive uma baixa no número de seguidores. Assim, prevejo que tenha uma taxa de retenção bem alta. :)



Alex Primo: Você comentou que usa o Twitter pelo simples prazer da comunicação e que não conseguiu nenhum contrato publicitário. Então por que trabalhou para conseguir dezenas de milhares de seguidores, de forma tão rápida? Trata-se de uma estratégia para projetos futuros, tendo em vista que você é uma publicitária?



Tess: Uma publicitária nunca descartaria o poder que uma rede tão consistente quanto o alto número de seguidores em um perfil do twitter pode ter. Mas sim, eu twitto por diversão. E como já respondi anteriormente, eu estou sempre procurando novidades, então, a minha rede tem papel fundamental nisso :)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Elenita e Geisy no paredão cultural







Elenita BBB e Geisy Arruda têm muito em comum.

Apesar de uma ser doutora e a outra quase universitária ambas são autênticas, corajosas, assumem-se, usam o que querem e gostam.

Porém, são duas emparedadas pela sociedade por serem fora do padrão: não se escondem e estão acima do peso estipulado como "adequado" para usar certas vestimentas.

Destacar-se tem seus riscos já diz o velho ditado: "só leva pedra árvore que dá frutos" ou "prego que se destaca leva martelada".

É isso aí, viva a sabedoria popular e salvem-nos da ignorância-preconceito da "massa-galera alienada"!




sábado, 20 de junho de 2009

O tombo do diploma

O tombo do diploma que já havia caído

por Solange Pereira Pinto


As conversas nos botecos, chamados alternativos, e nas salas de aulas dos cursos de comunicação rodaram feito peru bêbado em véspera de morte certa. Eram papos geralmente inflamados contra a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que declarou inconstitucional a obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão. Uma insegurança e quase pânico assaltaram estudantes e jornalistas, que falavam também em diplomas rasgados e extinção dos cursos de comunicação.

Eu, porém, pensava diferente antes mesmo do tema virar polêmica. Para ser jornalista realmente não é necessário o diploma, apenas o domínio de algumas técnicas, curiosidade, discernimento e a muita prática da redação jornalística. Assim como para ser ético, não é necessário diploma de absolutamente nada. E para ser justo, tampouco é preciso o diploma de advogado ou a toga de juiz.

Há coisas que estão além dos bancos escolares e das leituras obrigatórias selecionadas pelos professores A, B ou C. O que a decisão do STF mostra, em resumo, é que a vitória foi do empresariado enfim livre da contratação obrigatória de diplomados em jornalismo, podendo agora, sem fiscalização e riscos, colocar qualquer outro profissional na linha de produção (uma prática comum há tempos).

Curiosamente a decisão derruba o mito de que o jornalista é formador de opinião. Se houvesse realmente esse poder por parte dos “operadores da informação”, eles mesmos conseguiriam estampar em manchetes o debate e os riscos de extinção da “classe”. Assunto que pouco teve notoriedade nos veículos de comunicação.

O que se nota é que a formação de opinião é relacionada a outros poderes, principalmente o do capital e o de lugares de fala com mais status. Jornalista é nada. Jornalista (ou não) famoso (ou qualquer famoso) é “tudo”. Hoje se medem os minutos de fama e as contas bancárias polpudas para dizer "quem pode o quê e onde". Metros de disciplinas cursadas não servem (nunca serviram) para nada em se tratando de negociata, que fala outras linguagens menos sutis que o conhecimento verdadeiro.

Mais uma vez, a vitória é do mercado. Desta vez a reserva de mercado liberal (agir como quiser) dos empresários contra a reserva de mercado (educacional) de empregados jornalistas com diplomas. É a vitória contra o corporativismo de classe, diferentemente do que ocorre com os diplomados em Direito que se cercam cada vez mais de autorregulações e protecionismo (que particularmente sou contra por ferir alguns princípios meus, mas altamente compreensível em sociedades com grande numerário de gente ignorante).

Entretanto, o tombo do “grau” de jornalistas pode abrir uma chance ao autodidatismo, fator positivo neste país de educação formal falida e de fabriquetas de diplomas desde o ensino infantil. Torço para que caia agora o diploma da pedagogia, porque ensinar não se aprende em aulas de didática, ou não teríamos professores tão incapazes, analfabetos e rasos. Eu mesma não posso dar aulas para os ensinos médio e fundamental, enquanto alguns semianalfabetos com diploma de pedagogia de fundo de quintal podem. Bem como, administrador de empresas não se faz em faculdade, ou grandes conglomerados não teriam proprietários práticos, bem-sucedidos, e sem estudo. Torço pela queda da academia, finalmente, e seus títulos sobre títulos para se chegar a lugar algum. Aliás, lembremos da psicanálise que não é curso superior, contudo é sim formação. Neste caso vale o diploma? E psicólogo que faz terapia a partir de nota de rodapé de página de livro autoajuda vale certificado na parede?

Resumindo, quem vence na maioria das vezes, inclusive no caso em debate, é o interesse do capital e o lobby de alguns grupos; e no exercício raso da profissão isso vale tanto para jornalistas quanto para os magistrados e afins. Ou alguém ainda acha que a "linha editorial" do STF é isenta de interesses "publicitários"? Faz tempo que o governo e empresários contribuem para os votos relatados, que nada mais são que as matérias de capa do Supremo.

Nos tempos tecnológicos atuais só mudam os nomes das "mídias” e suas vestimentas (togas, ternos, jeans), infelizmente. Resta a dúvida, será que para advogar é mesmo necessário o diploma? Consultar códigos é mais pesquisa que conhecimento incorporado, tanto que os concurseiros de plantão passam bem em provas decorebas, as mais variadas, para serem serventuários da justiça em cargos de “qualquer nível superior”. Desejo que se tombem mais perus e que deixem a fauna humana transitar por todo o conhecimento (e seu amplo significado) sem as amarras das mensalidades de classe e salve-se quem puder, porque diploma não salva. Isso eu sei!

   




quinta-feira, 21 de maio de 2009

A pele que escuta

 

Tens no ser girassóis

Querida pedra bonita,

Preciso lhe revelar: me apaixonei. Você me libertou das rusgas e mesquinharias cotidianas. Os tropeços, os engarrafamentos, os seres imprestáveis, o desânimo diuturno, o sistema perverso e todos os barulhos insuportáveis do viver se transformaram em estátuas de sal a dormir por mais de cem anos.

Em miragem concreta, veio você. Uma visagem limpando as heras, afastando os espinhos; tirando-me da caverna, acendeu em fogueira novamente meus versos. Lembrou-me das estradas eternas (e verdadeiras) que me vou.

Por sua causa, vi o ser humano se manifestar deus criador. Fazia tempo que as cortinas tinham se fechado para a admiração. Logo eu, que sempre acreditei haver alguns clareados por aí, estava me tornando opaca. Soturna demais. Mas você veio tão forte... Tão bela... Tão inesperada! Ascendeu-me as boas sensações dormentes. Agora me sinto vivaz, em paz e feliz! Seus dedos lisos, afagando os sulcos do tempo em minha face, deslizam em poema: "dorme um sono tranquilo na casa da paz".

As horas se tornaram telas a colorir e, meus olhos,
duas lunetas voltadas às incontáveis estrelas do mar.

Em profundidade, inundo - por sua causa (e por minha) - meu caleidoscópio de sentimentos (giratórios e quebradiços) com a certeira esperança de que tudo passa. 

Percebo remontar os cacos em nacos amarelos e em tons alarajandos de "amanheceu vai além/tem nas mãos girassóis/brinca de ser o que for". 

Rodopio as idéias e a força criativa assinala meu peito em alvo inscrevendo: "salta do nada, desata e dança ao redor". 

Leio nas pedras e volto a pertencer radiantemente acolhida. Meu peito saltita em percussão e "diz sorridente ao cigano que o sonho vingou/sai do abandono e ouviras as estrelas de luz". 

Minha espontaneidade retoma as mãos e os desejos de fazer se jogam pelos meus ouvidos lambendo os tímpanos: "sai do silêncio, serena, serena canção/brinca de ser o que for/ tem nas mãos girassóis". Inebriada de canção gargalho serenamente por minhas entranhas. 

Minhas veias convertem-se em instrumentos de sopro e minhas artérias em cordas de viola. Você penetra e me traduz em música. Risca em mim o nome do amor. 

Sentir-lhe grava em mim "a laser histórias que ainda não sei". Vou contente a repetir-lhe. Uma. Duas. Dez. Cem vezes. Num sem fim para me integrar a você como se integram as vozes uníssonas do coral. 

Pede bis. 14 Bis. Encantada me lanço em "riscos da arte | capricho da sorte que vem".

Com amor,

Soll


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Pedra Bonita 14 Bis Composição: Vermelho / Murilo Antunes 

Leio nas pedras um velho e claro sinal 
Traços da escrita rupestre de algum ancestral 
Linda viagem, visagem, mensagem de amor 
Sol das cavernas, estradas eternas me vou 
Amanheceu vai além 
Tem nas mãos girassóis Brinca de ser o que for 
Brilham cem mil faróis 
Salta do nada, desata e dança ao redor 
Tocam tambores nas tabas, nas selvas irmãs 
Sai do silêncio, serena, serena canção 
Joga os deuses por terra se tem coração 
Diz sorridente ao cigano que o sonho vingou 
Sai do abandono e ouviras as estrelas de luz 
Sai do silêncio, serena, serena canção 
Brinca de ser o que for Tem nas mãos girassóis 
Gravo a laser histórias que ainda não sei 
Riscos da arte capricho da sorte que vem 
Dorme um sono tranquilo na casa da paz 
Risca na pedra bonita o nome do amor





Texto de Solange Pereira Pinto


domingo, 3 de maio de 2009

Mídia, saúde, ética e ambiente - A gripe suína em quatro dimensões

 



“A gripe suína é transmitida por vias aéreas, mas a contaminação pode se dar pelo contato com objetos que tenham o vírus. Os sintomas são similares aos da gripe comum, mas com febre acima de 39 graus, dores musculares e de cabeça intensas, olhos vermelhos, fluxo nasal e tosse. Além disso, pode haver diarreia e vômitos”.

por Solange Pereira Pinto

O noticiário internacional não para. A crise financeira perde manchete para uma dita possível crise na saúde pública, e paradoxalmente o aquecimento econômico de certos grupos. A gripe suína assume o topo de toda a imprensa e, mesmo antes de uma possível “pandemia” (epidemia mundial) se instalar no planeta, o preconceito (nem sempre velado) assume a liderança na audiência.

A avalanche informacional alardeia contabilizando – uma a uma – as descobertas de casos possíveis, casos suspeitos, casos reais, casos descartados, óbitos. Os infográficos vão apresentando os países “infectados”. Os noticiários online atualizam durante as 24 horas os acontecimentos em torno do tema. O google registra no filtro de busca mais de 1.220 milhões de ocorrências dos termos “gripe suína”.

Desinformação pelo excesso de informação

Na contramão, o expectador confuso (e ingênuo) não sabe se comer carne de porco mata, se respirar pega, se a gripe que tem naturalmente pode evoluir por si só em suína. De um lado, há especialistas garantindo que o país está sob controle. De outro, controvertidamente, existem especialistas dizendo que não existe vacina disponível para o vírus. Também há quem diga que pode ser a doença plantada como saída oportunista para certos mercados. As informações são muitas e a dúvidas maiores.
A mídia massiva, por sua vez, pecando em não trazer informações mais contextualizadas e críticas, melhor analisadas, para ajudar o cidadão a entender os acontecimentos. Fica se bastando na superficialidade e na contabilidade de vítimas, na subida e descida de “números”

Mudança de nome
No meio do caminho, a Organização Mundial de Saúde (OMS), para atender empresários do ramo, sugere que se pare de chamar a gripe de suína. Em nota afirma que passará a chamar a epidemia de influenza A (H1N1) – nome do vírus causador da gripe que é subdivido em gêneros (A, B, C) e em propriedades glicoprotéicas (HA e NA) – porque o nome está gerando preconceito com relação ao consumo de carne suína, cujo ato não transmite o vírus. A iniciativa da OMS visa preservar o mercado, pois a negativa de consumo pode gerar impactos econômicos (como no passado, por exemplo, com a gripe aviária).

Agronegócio, meio ambiente e saúde
Na balança, as questões de saúde e meio ambiente tem se convergido para uma mesma relação, na qual a ética poderia tomar partido. Vejamos.

Os casos de gripe suína em humanos, que já causaram algumas mortes no México, geram uma insegurança e incertezas para o agronegócio do Brasil, importante exportador de grãos e de carnes, afirmaram fontes dos setores público e privado. "Ainda não está claro, não dá para medir o que é factível e o que é especulação. Pode mexer no milho (nos preços), apesar de esse produto também estar focado em energia (nos EUA). Gera uma insegurança", declarou a jornalistas Carlo Lovatelli, presidente da Associação Brasileira de Agribusiness (Abag) e da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), pouco antes da abertura da Agrishow, maior feira agropecuária da América Latina que se inicia no dia quatro de maio em Ribeirão Preto. Além de outros impactos, como na soja.

O que não deixa dúvidas é que a Influeza A (H1N1), apelidada de gripe suína, tem sua origem no sistema de criação industrial de animais dominado pelas grandes empresas transnacionais. Para a produção em escala cada vez maior, se mantém confinamentos suínos sem a segurança sanitária como prioridade, tendo em vista políticas de mercado que prezam a rapidez do lucro em detrimento do cuidado à saúde e aos aspectos de proteção animal e humana.

As conclusões do painel Pew Commission on Industrial Farm Animal Prodution (Comissão Pew sobre Produção Animal Industrial), publicadas em 2008, afirmam que as condições de criação e confinamento da produção industrial, sobretudo em suínos, criam um ambiente perfeito para a recombinação de vírus de distintas cepas. Inclusive, mencionam o perigo de recombinação da gripe aviária e da suína e como finalmente pode chegar a recombinar em vírus que afetem e sejam transmitidos entre humanos. Mencionam também que por muitas vias, incluindo a contaminação das águas, pode chegar a localidades longínquas, sem aparente contato direto.

Medicamentos: uma saída lucrativa
Já na epidemia, são também as transnacionais as que mais lucram: as empresas biotecnológicas e farmacêuticas que monopolizam as vacinas e os antivirais. Os únicos antivirais que ainda têm ação contra o novo vírus estão patenteados na maior parte do mundo e são de propriedade de duas grandes empresas farmacêuticas: o zanamivir, com nome comercial Relenza, comercializado pela GlaxoSmithKline, e o oseltamivir, cuja marca comercial é Tamiflu, patenteado pela Gilead Sciencies, licenciado de forma exclusiva pela Roche. Glaxo e Roche são, respectivamente, a segunda e a quarta empresas farmacêuticas em escala mundial e, igualmente como no restante de seus remédios, as epidemias são suas melhores oportunidades de negócio.

Preconceito e vulnerabilidade
Voltando ao termo, percebem-se outras iniciativas procurando mudar o nome da gripe. A França propôs o nome gripe mexicana, o que foi prontamente rechaçado pelo México. Interessante é notar que na epidemia anterior, a gripe aviária começou sendo chamada de gripe asiática. Agora o esforço está no sentido inverso, da mudança de um nome ligado ao animal para um nome ligado à geografia. Por que será? Melhor proteger um porco a proteger um povo?

Mudando ou não o nome o preconceito já atinge a população mexicana. Embora cidadãos oportunistas também encontrem lugar em meio a crises para contestá-las. Tamanho é o temor mundial a respeito da pandemia da gripe suína que o zagueiro Héctor Reynoso, do Chivas Guadalajara, tentou usar a doença que vem ameaçando o planeta para intimidar um adversário ao ameaçar o atacante argentino Sebastián Penco, do Everton, tossindo e tentando jogar catarro no atleta do Everton.

Já a chanceler mexicana Patrícia Espinosa criticou a decisão da Colômbia de se negar a sediar em Bogotá os jogos dos times mexicanos de futebol Chivas e San Luís pelas oitavas-de-final da Copa Libertadores da América.

Enquanto isso, de forma mais concreta, vários países estão adotando medidas para tentar conter a propagação do vírus cumprindo a “ética da discriminação”. A União Europeia pediu aos seus cidadãos que evitem viajar para México, Estados Unidos e Canadá. Argentina e Cuba foram além e suspenderam todos os voos vindos do México. A China, que teve o primeiro caso confirmado em Hong Kong na sexta-feira, de um mexicano que havia entrado no país por Xangai, anunciou uma quarentena para todas as pessoas que viajaram no mesmo voo do que o homem infectado. O hotel onde ele se hospedou em Hong Kong também foi fechado por sete dias e todos os seus hóspedes e funcionários receberam o antiviral Tamiflu, um dos dois medicamentos recomendados pela OMS para tratar a gripe suína.

No Egito, as autoridades iniciariam neste sábado o sacrifício de 300 mil porcos como medida de precaução, apesar de os especialistas afirmarem que não há risco de infecção pela ingestão de carne de porco e que não há indicações científicas de que o sacrifício de porcos possa conter a doença.

A vulnerabilidade se espalha e o povo mexicano começa a ganhar as marcas simbólicas da “pandemia” e ter sua dignidade ameaçada, a despeito das causas ecossistêmicas que envolvem a “produção da gripe suína”. Arcam com o peso desproporcional das consequências causadas pelo contexto industrial, comercial, econômico, político que envolve e mantém o interesse de vários países; com principios éticos espirrados.

Pânico ou oportunismo?
Máscaras, kits para testes, remédios, abastecimento da despensa, as “compras de pânico” crescem. Mesmo sem casos confirmados no Brasil, o governo de Minas Gerais anunciou ainda a compra de 6 milhões de máscaras --sendo 5 milhões para a população e 1 milhão de máscaras cirúrgicas para uso exclusivo dos profissionais de saúde. A Secretaria de Estado da Saúde informou ainda que está comprando 50 mil doses de medicamento antiviral para adultos e outras 500 doses para crianças.

Além disso, o Brasil vai receber na próxima terça-feira (5) kits para diagnóstico rápido da gripe. Os kits são produzidos num centro especializado de Atlanta, nos Estados Unidos. Ações e planos de contingência em saúde pública são adotados pelos diversos países. Bolsas de mercado oscilando, caem as ações das indústrias do agronegócio suíno e sobem as ações dos laboratórios farmacêuticos (com o anúncio da nova epidemia no México, as ações da Gilead subiram 3%, as da Roche 4% e as da Glaxo 6%; e isso é somente o começo).

Números mais ou menos
Até agora, foram confirmadas apenas 16 mortes provocadas pela gripe suína no México. As autoridades mexicanas revisaram para baixo o número de casos suspeitos de mortes provocadas pela gripe suína, de 176 para 101, indicando que o surto da doença pode ser menos grave do que se pensava. Enquanto isso, a OMS está enviando 2,4 milhões de doses de medicamentos antivirais para 72 países, de acordo com Michael Ryan.

Ética da sobrevivência ou sobrevivência da ética?

Diante da complexidade (Edgar Morin) que organiza o mundo neste século, onde cada um de nós está relacionado, afeta e é afetado pelas ações e pelas idéias de todos os demais, verifica-se que estamos vivendo a era dos desequilíbrios que geram novas questões ambientais, de saúde pública e de ética.

Pede-se com urgência uma nova atitude da comunidade planetária para o desenvolvimento sustentável, com responsabilidade e respeito aos direitos humanos.

Nota-se claramente, no caso da gripe suína, a influência do consumo, da economia, do ambiente, dos contextos políticos, da indústria, da coletividade acarretando maior vulnerabilidade a determinadas populações. A vez é do México, mas poderia ser outro o país do momento.

Medidas restritivas, preconceituosas, excludentes são tomadas pelos países “amigos”. Protege-se a reputação da carne de porco e deteriora-se a da população mexicana. A chanceler do México, Patrícia Espinosa, criticou as medidas "discriminatórias e carentes de fundamento" adotadas por alguns países contra cidadãos mexicanos.

Espinosa se mostrou "especialmente" preocupada pelo caso da China — que doou ao México material e equipamento médico avaliado em US$ 4 milhões — por "isolar, sob condições inaceitáveis, cidadãos mexicanos que não deram mostras de nenhuma doença". Trata-se de uma família de cinco mexicanos que foram levados à força para um hospital e, depois, impedidos de deixá-lo até que a embaixada do México na China interveio, permitindo que eles fossem transferidos para um hotel. E advertiu que "não há justificativa nenhuma para violentar os direitos de cidadão algum, nem para adotar medidas que não têm base científica nem de saúde pública".

Em comunicados conjuntos, por sua vez, Estados Unidos, México e Canadá pedem que nova gripe não limite o comércio e os negócios internacionais. Contudo, como limitar o contato com o estigma da hostilidade social? Como o povo mexicano está passando pela gripe, seja ela forjada, ampliada, real, diante das medidas hiperbólicas adotadas pelos organismos em defesa sabe se lá quais outros interesses? Como ficam os direitos dos cidadãos mexicanos de irem e virem? Repete-se a formação de uma nova classe de excluídos (como no caso desumano das colônias de Hanseníase)? Os mexicanos simbolizarão os novos párias, embora o problema seja sistêmico e da responsabilidade de todos?

Poderíamos, neste caso, fazer uma aposta na heurística (pedagogia) do medo para se chegar à ética da responsabilidade? Ou será apenas um reaquecimento da economia global mudando o foco de investimentos e consumo? Teoria da conspiração? Paranóia global?
Mídia e bioética

O uso da mídia, ainda que mais sutil e diversificado, lembrará o desempenho do rádio nas grandes guerras mundiais (a rádio era o principal meio de informação e, também, de desinformação das populações) e da psicalogia de Goebbels (o termo psicagogia foi usado nos anos de 1930, por Serge Tchakhotine para descrever os tiranos que utilizavam a rádio para conduzir as massas através da persuasão)?

Diante de tantos questionamentos, nesse contexto de alarde (mais de pandemônio que de pandemia) e histeria falta também uma bioética de intervenção em defesa dos interesses e direitos das populações econômica e socialmente excluídas do processo desenvolvimentista mundial.

A tese defendida pelos bioeticistas Volnei Garrafa e Dora Porto é de que seria eticamente defensável a utilização de “práticas intervencionistas, diretas e duras, que instrumentalizem a busca da diminuição das iniqüidades [...] o que define as prioridades não é a demanda ou as necessidade detectadas na realidade social: é o mercado. E o mercado tem se mostrado a cada ano mais perverso, com regras cada dia mais protecionistas para os países ricos, os mais insensíveis”. Pensando assim, qual (quais) população está mais propensa a ser dizimada diante de uma gripe?

O cotidiano vulnerável dos países periféricos marcados pela exclusão social, concentração de poder, manipulação da informação, miséria, pobreza, evasão de divisas das nações mais pobres para os países ditos centrais beneficiando conglomerados industriais etc. requer uma mediação competente com o estabelecimento de políticas efetivas de defesa dos direitos humanos e da cidadania. “As conseqüências danosas, humanas e ambientais, da desenfreada expansão tecnológica são partilhadas em nome da igualdade. Os efeitos nefastos, políticos e econômicos, de um sistema que vulnerabiliza e vitima o cotidiano de milhões soa impostos em nome da liberdade. A apropriação espúria das idéias de liberdade e igualdade transformam-nas em instrumentos ideológicos de dominação e exploração, legalizados por medidas políticas e sanções econômicas”, defendem Garrafa e Porto.

Cumplicidade e intervenção
É urgente a necessidade de se romper o pacto da mídia com a produção de notícias baseadas em interesses econômicos, em leads e em apurações superficiais. Há que se estabelecer uma cumplicidade entre os meios de comunicação e os fundamentos da Bioética para um debate sobre os rumos da uma epidemia que podem estar envoltos de conflitos morais pontuando sempre a vulnerabilidade. Trazer à pauta os universos contraditórios, as posturas paradoxais, aproximar as realidades.

Enfim, falta aos meios de comunicação de massa expor uma visão ampliada e complexa da saúde humana e das ações humanas que envolvem o ambiente, a vida e saúde, exigindo-se um enfoque transdisciplinar em suas reportagens. Falta à mídia exercer com competência o seu papel de formação da cidadania e de informação de qualidade a serviço do interesse público. Falta concretizar o amplo papel da comunicação de tornar comum o conhecimento e educar a audiência à luz da bioética.

Quem com certeza mais sofre são as populações submetidas à avalanche informacional que desinforma, quem paga diretamente é o povo mexicano vulnerável aos escarros que não vêm diretamente de uma gripe, mas de outras desordens. No entanto, ainda se declara que todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole os Direitos Humanos. Mas a mídia falante se cala.

“Descobrimo-nos portadores de doenças e buscamos resolvê-las individualmente, tentando ignorar que na maioria das vezes elas são frutos de um cotidiano opressor, ditado por uma engrenagem cega que não coloca o ser humano como fim em si mesmo, mas como meio exclusivo para obtenção de lucro. Nossa cegueira, no entanto, não nos exime da responsabilidade. Devemos reconhecer que nossas escolhas cotidianas refletem uma opção ideológica voltada apenas a reproduzir o status quo” (Porto, D & Garrafa, V. Bioética de Intervenção: considerações sobre a economia de mercado. Bioética. 2005; 13 (1):111-123).


Sites consultados durante a elaboração deste texto (Acesso em2/maio/ 2009)


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