saudades do que não existiu,
mas que de alguma forma eu inventei em desejo...
saudades do que poderia ter sido,
mas não havia como ser...
saudades do que ouvi dizer,
mas ninguém nunca falou...
saudade estranha abraçada com a tristeza,
mas que eu nem sei exatamente do quê.
Aviso importante:
A visualização deste blog fica melhor em computador. Todos os textos (e esboços) postados neste blog são de autoria de Solange Perpin
(Solange Pereira Pinto). Portanto, ao utilizar algum deles cite a fonte. Obrigada!
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
estímulo
de repente meu pai, que mora longe e raramente nos falamos, me liga e diz: vc é minha musa, a primeira de todos os filhos. a mais inteligente, com QI 180 (isso é bom?, pensei). "vc pode ser o que quiser minha filha. pode chegar aonde quiser". É tão bom a gente ouvir palavras de estímulo, ne? #emocionei
sexta-feira, 6 de julho de 2012
E a certeza me perguntou
à Miza Vidigal que, desde meu nascimento como mãe, tem me ajudado a matar dúvidas, a Ana Cláudia e ao Manoel Rodrigues que têm o dom tirar dúvidas cinzentas.
quando a
dúvida morreu
Por Solange
Pereira Pinto
Em 5.7.2012
Quando a senha do banco entrou e a máquina vomitou os extratos dos últimos seis meses, eu tive certeza. O problema é que quando matei uma dúvida, nasceram outras dez. Eu explico.
Foi agora mesmo, quase de repente, que a certeza veio. Também por um triz ela pode ir embora. Sei disso. Estou aqui tentando contê-la entre os dedos, para ela me aconselhar imediatamente. Se você me perguntar se são bons os conselhos que a certeza tem, já não tenho tanta certeza. Mas tento ouvi-la, pois a dúvida-mor já perturbou demais. Sei que a atual é uma certeza escorregadia, igual quando a gente tenta segurar a espuma do mar com as mãos. Enquanto a certeza foge, a dúvida perpetua. Oh, sina!
Voltando ao assunto. E não é que a
primeira pergunta que veio depois da certeza aparecer foi “quando morreu a
dúvida”? Isso deve ser sabotagem, só pode!
Em uma situação quase congênita, a
dúvida tem me rondado os dias; melhor dizendo, os meses, os anos. Uns 30
talvez. Como um cão pidão, ela não late, nem me larga. No café da manhã,
refleti sobre essa entrona de outrora. Vi que não é filha única, não tem uma
forma somente, tem duração imprevista e alguns combates possíveis.
Percebi que a dúvida não é ostensiva,
feito um guarda de trânsito a sinalizar com apitos e braços abertos. Ela é como
poeira em móvel de ipê, quase invisível; marcando as pontas dos dedos de
marrom. Ela é assim mesmo, um tanto invasora das digitais. Ontem, ela se fez
notar quando peguei o bilhete grudado no monitor da televisão. Ai que dúvida
chatinha!
Ela, muitas vezes, chega num envelope
do correio; quando abro e vejo que não sei bem o que fazer com aquela notícia.
A dúvida já chegou por e-mail, torpedo e telefonema. Até por panfleto no
para-brisa a danada me pegou no estacionamento do shopping. Eu era bem mais
jovem quando isso ocorreu. Depois disso, aprendi. Eu jogo o folder direto no
cesto, para a dúvida não ter chance de entrar comigo no carro. Dúvida quando
cola é um saco para tirar.
Tenho notado que ganhei mais dúvidas
ultimamente do que na década de 80. Ou foram elas que mudaram de forma e jeito?
Será? Temos sempre um tanto igual de dúvidas? Hoje tem uma turma delas aqui
batucando o meu peito e desorientando o meu juízo. E, por isso, vou falar dela,
fazer fofoca mesmo. Dane-se! Cansei!
A dúvida vem no ar mais seco e também nos
dias chuvosos. Na primavera, no verão, no inverno e no outono. Ela não tem
estação preferida, ela pode me orbitar em qualquer clima ou tempo, época ou
data comemorativa. Em festas de aniversário, principalmente, confesso, ela tem
me dado um trabalhão. E, quando insiste demais, me sento com ela no sofá,
encaro seu centro, fuzilo e vejo um DVD antigo para relaxar. Opto por ficar
comigo, então ela vai embora batendo o pé porta afora e convidando, vez por
outra, a culpa para entrar. Ela é terrível; cruel até.
Acho que ela gosta de madrugadas.
Pensando bem, da hora do almoço também. Ah, sei lá. Como um sino, a dúvida
chega a me ensurdecer nos momentos mais frágeis. E quando ela combina com os
hormônios oscilando? Aí é quase doença. Eu até choro. Choro de dor de dúvida.
A dor de dúvida é estranha. Ela pode
aparecer na garganta, na cabeça, na coluna. Em uma amiga, ela virou pneumonia.
Na outra, torcicolo. Dependendo de onde ela se instala, dói até sangrar. Já
tive dúvida que quase me matou do coração, pulsando a quase 120 batimentos por
minuto. Foi dúvida maquiada de pânico, tenho quase certeza de que viraria
síndrome em pouco tempo.
Lembro-me que, uma desse tamanhão, só
foi embora quando radicalizei e chutei o mestrado precipício abaixo. Fui tão
corajosa que fiquei olhando a dúvida se espatifando lá longe. Não é que a
danada parece ter sete vidas e vez por outra se esconde em um livro ou outro
daquele tempo? Afff, dá canseira tirar a dúvida de tudo. Haja faxina!
Recentemente, descobri algumas formas
de perceber se ela está por perto. Sabe quando você não consegue levantar da
cama em uma rotina lotada? Pode ser ela lhe enfraquecendo para você não
matá-la. A dúvida se mantém esbelta quando se alimenta de angústia com calda de
sofrimento. Ou quando engole mais uma fatia de baixa auto-estima, daquelas bem
magrinhas de autoconfiança.
Há casos em que ela também avisa a
chegada, quando nos afastamos cada vez mais do trim-trim-trim do telefone,
receando ser a pessoa XYZ. Pode ser ela nos mostrando nossas fantasias e
inseguranças mais infantis. A dúvida dá risada quando a gente constrói castelos
de ilusão e medos. No pique-pega, atordoa. Ela embaralha o nosso querer sumir
com o querer ficar. E, assim, a gente se esconde junto com ela.
Porque a dúvida gosta mesmo é de fazer
companhia. Tão egocêntrica que é, quer a gente pensando nela todo o
momento. Dúvida é marrenta. Ela dá um jeito de chegar e dar seu “oi” até
no horário político, interrompendo a novela que ajudava a gente a se livrar
dela. A dúvida se multiplica feito piolho; não sai da cabeça e coça as ideias
deixando as sinapses arrepiadas de tristeza. Se a gente se livra dela em uma
decisão, aparecem logo outras tantas. Alguém sabe qual é o remédio que mata
dúvidas para sempre?
Agora, problemático é quando a dúvida
paralisa. Dizem que uma facção duvidosa se chama dilema, do tipo “se ficar o
bicho pega e se correr o bicho come”. Detesto essas dúvidas mais sofisticadas,
adultas mesmo. O antídoto que normalmente uso é a amiga ética e a prima
lealdade. Elas têm me ajudado a mandar um monte de dúvidas embora. Situação
pior vem com a aporia, que impossibilita qualquer conclusão ou resposta. Essa
dúvida é de matar a gente. Haja terapia.
Nessa multiplicação moderna de dúvidas
e maior escassez de certezas, tenho muita vontade de me mandar para a Terra do
Nunca, subir no abacateiro para ver o sol se por e a noite alertar que menos um
dia existe. Mas voltar à infância não dá, teria por penalidade um turbilhão de
dúvidas por vir. Melhor não.
Ou quem sabe, poderia me mudar para
longe das cidades cheias de trânsito, contas, futilidades, consumo exagerado,
comparações cruéis, modelos inatingíveis, informações desencontradas, exibições
de todo tipo e, assim, deixar para trás esse modelo metrópole que fabrica um
monte de dúvidas por segundo, antes mesmo de a gente piscar. O problema é que
não sei qual dúvida se acomodaria sorrateira em minha bagagem.
As dúvidas pequenininhas são também
ardilosas e intrigantes. Claro que não estou falando daquelas dúvidas bobinhas,
que aparecem na sorveteria entre os potes de sabores tão exóticos
experimentados quando estamos sozinhos. Nem me refiro àquelas transparentes
grudadas nas vitrines de bolsas e sapatos coloridos, que geralmente pulam em
nossa frente durante o sobe e desce dos olhos.
Estou falando daquele tipo de dúvida
que domina um jantar inteiro, quando titubeamos entre dar ou não o “primeiro
beijo” em quem estamos apaixonados e acabamos de convidar para uma saída “sem
maiores interesses”. Obviamente, que esta não chega aos pés daquela
“casar ou não casar” e mais longe ainda está da dúvida derradeira “separar ou
ficar numa relação emocionalmente insatisfatória”. Essa me pegou por três anos
antes mesmo de tentar o “sim”. Uma dúvida para lá de maluca. Pensando bem, o
tamanho da dúvida quem dá é cada um, né? A dúvida de um, pode ser a certeza do
outro. Tem medida igual não. Esquece.
Como acabar com elas? Acho que cada
pessoa tem seus segredos e cria suas armadilhas para despedaçar as dúvidas.
Tenho uma amigona que é craque em matar um monte das minhas. Ela me conhece tão
bem e faz perguntas tão inteligentes para a dúvida, que ela sai correndo de
vergonha e não volta mais. Em compensação, um amigo parece plantador de
dúvidas, a gente leva uma e volta com 50; ele devia ser economista. Deixa pra
lá.
Já destruí dúvidas com livros, no
Google e em manuais. Na terapia me livrei de algumas dúvidas de mim e
ganhei outras. Com especialistas, derrubei várias de vários níveis e temas.
Perguntando “na lata” também. Revelando-a aos cúmplices dela idem (porque tem
gente que gosta implantar dúvida como se fosse um chip nos miolos do outro).
Escondida é que ela não pode ficar. Se tem uma coisa que dúvida foge é de
plateia e palco. Ela gosta de ficar dentro da cabeça, rodopiando na mente, construindo
as paranóias e os absurdos do “se” e “se” e “se”. Dúvida grandiosa, orgulhosa,
exposta na mesa do jantar, para todos, é quase assassinato a sangue frio. A
dúvida detesta tamanha ousadia.
Aliás, uma acabou de me soprar no
ouvido que não me largará até morrer. Essa é maior que o pé de feijão do João.
Será? Fiquei com medo dela. Não! Saia daqui agora, está me ouvindo? Não vai me
obedecer? Então vamos ver quem ganha essa luta!
Entendi quem você é e agora me
desafiou! Vou lhe tornar tão imensa, tão grande, tão gigante, que você ficará
tão evidente, mas tão evidente, que será impossível não olhar para você todos
os segundos do hoje ao amanhã. Você ficará do meu tamanho e, então, será você
ou eu. Você está me deixando uma única saída: matá-la no enfrentamento! Não
ouvirei mais os seus “senões” e “porém”.
Tomara que a minha coragem esteja
antenada escutando essa conversa e chegue a tempo para agir ou tudo ficará na
mesma. Dai, mais uma vez, ouvirei os queridos amigos dizendo: “calma, vai
passar... dê tempo ao tempo! Amanhã será outro dia”. É verdade que
algumas dúvidas fracotes morrem quando o sol nasce, mas outras prosseguem pela
eternidade quando não olhamos direito para elas. Cansei de alimentá-las de
covardia e hipóteses negativas. Levei meia dúzia delas ao papel e materializei
sua dimensão. Estou pronta.
Logo após sair do caixa eletrônico,
picotei os extratos bancários, fiz confete deles lixeira abaixo, levantei a
cabeça, mirei a porta, entrei no carro, rasguei a alma e, sinceramente,
perguntei: quantas dúvidas estão na fila? Mande uma a uma, que estou pronta
para enterrá-las. “Enquanto houver sol, ainda há
de haver saída. Nenhuma idéia vale uma vida”.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Missão do professor
"Missão do professor: A partir do comprometimento com o processo ensino-aprendizagem, promover o conhecimento, respeitando as diferenças e estimulando a pluralidade, objetivando despertar o senso crítico e ético, assim como ampliar a consciência individual para o agir pessoal com responsabilidade coletiva, contribuindo para o desenvolvimento humano e social". SPP
sábado, 5 de maio de 2012
Fresca
Por Solange Pereira Pinto
Madrugada em Brasília, 4 de maio de 2012.
A
picada do grafite ainda comichava. Havia perdido a noção de quantas vezes a
lapiseira lhe ferroara, enquanto os textos agonizavam a espera do ponto. Os
poros acinzentavam aleatoriamente o dorso da mão direita. Ao lado, o cigarro cuspia
brasa. As pernas se agarravam descompassadas. Tanto mais as ideias
enrodilhavam, a pele enrijecia. O bote certeiro dos agulhões lhe assustava. O
relógio confundia-lhe a cabeça. Sabia disso e ainda assim adiava jogar a
primeira palavra na página em
branco. Temia jorrar suas bobagens. Os dedos duvidavam e não
deixavam uma sílaba sequer escapar. Espetava mais uma vez.O
tempo ardia. A língua seca evaporava sua voz. Tomou um “engole” rápido da
borracha e, antes de o medo gaguejar a coragem, escreveu firmemente: “Fresca”.
Apertou duas vezes a cabeça roliça do cilindro prateado. O bastãozinho fino,
mal saiu da lança pontiaguda, apontou em disparada:
“O gosto de poço, fundo e
espelhado, escorria pelas narinas. O barro molhado beijado de chuva tingia de
laranja aquela tarde entediada. Seus pés pausavam a vontade de jogar o corpo no
chão e lambuzar a pele de vulnerabilidade. Despida de si, faria sua modelagem
de lama. Pensava. Voltou-se para o canto da mesa e argüiu a espera. A argila
fria soprava as linhas da palma da mão esquerda, que auscultavam o bojo da
moringa como se quisessem mapear o contorno de uma noite qualquer. Um assobio
agudo de água penetrava, estreito, os poros terracota do pote. Alisou o tampo arredondado
e num leve puxão dedilhou a fragilidade. Cheirou a infância e bebericou a memória.
Sempre estivera ali, sobre a toalha crua de juta cobrindo o aparador, o cuidado
da avó. As obrigações esquentavam o juízo, ela avisava. A textura porosa da
saudade costurou de camponesa o avental do conto de fadas. Ao alinhavar a
última frase, o cotovelo espatifou o gargalo. Em cacos, a moringa desfez o
tempo”.
A página molhada derreteu a lembrança e, entre sede e alívio, a menina releu
“fresca”.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Sinto logo me abalo
Quando a gente se abala (enraivece, magoa etc), vem logo alguém dizer: deixa isso pra lá! esqueça! é assim mesmo! E dai eu penso: quando não me abalar mais e nem me surpreender é porque morri... enquanto houver sensibilidade haverá perplexidade e, sem a primeira, eu não existo. A segunda fica por conta das pessoas sem noção que aparecem no meu caminho. Soll, 15.12.2011
domingo, 11 de dezembro de 2011
Mãe
Não somos péssimas mães não. o problema é que inventaram que mãe é "salva pátria" e isso é mentira. filho nasce pronto... desde aquele dia do X + Y. Mãe é apenas a expectadora e testemunha mais próxima da transformação da semente. Inocentemente - nós mães (culturalmente inventadas) - achamos que podemos transformar eucalipto em jatobá. E nem sempre somos da mesma espécie dos filhos, dai os conflitos. Algumas plantas não podem conviver juntas sem uma engolir ou secar a outra....
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Na onda
Tô vendo cada vez mais gente comprando neurose coletiva (como se a vida tivesse algum controle) pensando que a vida é peixe urbano! Se ligue que vida em grupo não é necessariamente um groupon...
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Horóscopiano
Bom dia pra vc que está alinhado com os astros! A força interior e a coragem vencerão a causalidade e a desordem dos acontecimentos. O intelecto, aliado ao conhecimento, predominará sobre o instinto. Dia propício a proteção, alegria, fertilidade. Anuncia uma mudança de ciclo,a nuvem negra vai passar e deixá-lo mais consciente e forte para enfrentar problemas. #oxalá #facebookiano
Devolva-se!
Quando sua vida sumir, sair para dar uma volta e demorar, vá atrás urgentemente dela.
Muitas vezes um sequestro de si mesmo é a salvação para dias melhores para sempre.
Essas vidas estão muito saidinhas ultimamente... indo buscar ilusões de comercial ou de conversinha superficial de parentes artificiais, por que não mentirosos...
Para esse tipo de sequestro, o resgate é si mesmo e a pena é salvar-se. Confie nesse crime necessário na pós-modernidade: sequestre-se! devolva-se!
Muitas vezes um sequestro de si mesmo é a salvação para dias melhores para sempre.
Essas vidas estão muito saidinhas ultimamente... indo buscar ilusões de comercial ou de conversinha superficial de parentes artificiais, por que não mentirosos...
Para esse tipo de sequestro, o resgate é si mesmo e a pena é salvar-se. Confie nesse crime necessário na pós-modernidade: sequestre-se! devolva-se!
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
domingo, 30 de outubro de 2011
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
As capas dos livros que me revelam têm lugar especial
Intuitivamente fui me guardando nas estantes do escritório... os livros que guardo mais apreço e apego são aqueles que mais respondem minhas inquietudes. olhei para o lado esquerdo, neste minuto, e descobri pq a vida toda comprei certos livros ligados à cultura, contos, antropologia, fotografia, sociologia, folclore, mitologia e artes divinatórias etc.... #eureka
domingo, 23 de outubro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
Inimigos
às vezes se entra em uma batalha apenas para mostrar ao inimigo que ele é inimigo, pois de antemão já se sabe da desigualdade de forças e da derrota que virá. Ainda assim insistimos em ir para nos fazer representar.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
domingo, 4 de setembro de 2011
Quando queremos engolir a alma
Por Solange Pereira Pinto
4/9/2011
Não aprendemos a nos apaixonar pela mente de uma pessoa. Desde cedo nos ensinam a desconfiar de quem se aproxima de nós, a partir das observações de como se vestem, como agem e o que dizem. Infelizmente, nesta cultura, não nos ensinam a enxergar e valorizar o pensamento. Ou seja, o jeito como cada um constrói a sua própria realidade. Com o passar do tempo, isso fará muita diferença. Ainda que a gente mude, tem uma lógica que não se modifica tanto assim. É dela que vem a maneira particular de sentir e agir no mundo.
Dizem também que os sexos opostos não podem se admirar e, por isso, nutrir um grande desejo mutuamente sem as tais “segundas intenções”. E se assim acontece sentimos culpa.
Por vezes, achamo-nos inadequados (julgamos que estamos errados) se chega alguém e toma o peito de ardor e descompasso, quando a mente se ocupa todos os segundos da vontade de ver, rever, ouvir e alimentar ainda mais o feitiço que torna nossos dias tão mais interessantes e cheios de sentido (aquele mesmo que costumamos achar não existir quando a rotina se estabelece no cotidiano).
Não estou falando somente de amizade, sentimento fraterno de bem-querer, simpatia, grande afeição e cumplicidade. Refiro-me a encantamento. Aquele deslumbre raro que sentimos por uns poucos seres humanos. Sabe quando a gente não precisa falar e alguém entende porque pensa igualzinho? Ou simplesmente completa nossas frases com um olhar e um sorriso no canto da boca vem tão cheio de significados que o desejo é devorar o pensamento?
Tem quem nos penetra tão perfeitamente que se torna difícil resistir. É mesmo um feitiço e um poder mágico nos transforma. Começamos a imaginar aonde aquela pessoa se escondia que ainda não estava compartilhando todos os espaços e teorias de vida. A eterna busca e permanência junto aos iguais.
Mas qual é o problema que há nisso? Nenhum se a gente estiver sozinho ou não tiver um parceiro. Socialmente, escreveu-se que no casamento, namoro ou relacionamento dito sério não cabe paixão que não seja entre o casal. Mito que causa dor e sofrimento.
Há pessoas que necessitam de intensidade para viver e que a inteligência é uma capacidade tão admirável quanto um belo físico. E como manter a “fidelidade” psicológica se nem a física estamos dando conta nestes tempos mais que modernos? Não é torturante ter que reprimir o desejo de conhecer uma pessoa interessante se tudo o que mais fazemos na vida é tentar (aprender?) nos relacionar? Estaria o desejo físico, o tesão pelo corpo do outro, no mesmo patamar do desejo intelectual, a excitação pelo pensamento do outro? Podemos de fato ser livres sexualmente e mentalmente?
E o que fazer com os riscos que ameaçam a relação estável já estabelecida com aquele outro nem tão parecido assim? Nas diversas etapas da vida, cujos desejos se diferem e são típicos também da idade (ainda bem!), temos medo de romper os pactos de fidelidade, mas quais são eles? Sabemos que há casos em que a atração física leva ao envolvimento emocional e vice-versa. Há outros em que a admiração intelectual leva ao envolvimento físico e/ou emocional. Penso que são dimensões diferentes e raramente teremos (ou seremos) um companheiro que supra todas. Assim como nem sempre conseguiremos conter o que nos move nesta vida.
Há momentos e pessoas que nos fazem querer engolir a alma. Pergunto-me por que evitar se isso é tão humano e raro? No meu caso, o tesão passa bem mais rápido do que minha veneração pelos talentos do intelecto e da arte. E sei que cada caso é um caso, porém até hoje encontrei em meu caminho poucas pessoas dignas de reverência, a maior parte está nos livros, mas duas ou três ainda posso conversar ao vivo; e devorá-las com minha paixão. Viver as relações derivadas de tantos outros propósitos é muito bom, mas não há pacto que me afaste dos encontros com os iguais, pois isso me afastaria de mim. Não mais após os 40 anos de vida.
Diz um mito que o poderoso Zeus (o deus supremo do mundo) engoliu viva sua primeira esposa Métis (deusa da astúcia e inteligência), grávida de Athena (deusa da sabedoria – logos – e da justiça), quando soube pelo oráculo (Gaia) que se tivesse uma filha, ela se tornaria ainda mais poderosa do que ele. Assim, para impedir o nascimento de Athena (que acabou por ser gerada na cabeça do soberano do Olimpo) ele engoliu Métis, que tentou escapar dele, mudando de forma várias vezes, mas acabou engravidando. Findo o período de gestação, o supremo deus começou a sentir terríveis dores de cabeça (pois enquanto a justiça não nasce, elas são inevitáveis). Desesperado e no limite, Zeus ordenou ao ferreiro divino Hefestos (Vulcano) que lhe abrisse a cabeça com um machado de ouro para tirar a deusa Palas Athena (imagem) Palas significa “a donzela”, para se manter sempre virgem e impor a autoridade de quem não se deixa seduzir ou corromper.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
A senha de Realengo
Por Solange Pereira Pinto
O massacre, a chacina, a tragédia, o horror ou qualquer outro substantivo repulsivo que se queira usar deu ao brasileiro, nesta semana, uma satisfação incrível: indignar-se contra tudo e todos! “Olha aí meu bem, prudência e dinheiro no bolso, canja de galinha não faz mal a ninguém*”.
Mais do que copa do mundo e final de campeonato, apuração de carnaval ou reta final de eleições, o caso da Escola Municipal Tasso da Silveira, ocorrido no dia 7/4, em Realengo (zona oeste do Rio de Janeiro), trouxe ao país um sentimento de união e opinião. “Cuidado prá não cair da bicicleta, cuidado prá não esquecer o guarda-chuva. Conversa, bitoca, espera, passa o rodo para melhorar e chama prá dançar”.
Era a vez de repassar as mazelas do país, com muita ênfase e comoção. Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, assassino-suicida de 12 jovens estudantes e outros feridos, protagonizou o enredo que trouxe à tona tudo e qualquer coisa que estivesse debaixo do tapete e por baixo da vista grossa de cada um de nós. “Engenho de Dentro, quem não saltar agora só em Realengo. Engenho de Dentro, quem não dançar agora só no próximo baile em Realengo”.
Bullying, desigualdade social, violência, individualismo, fanatismo, fundamentalismo religioso, importância da família, facilidade de entrada em ambientes coletivos, insegurança escolar, videogames violentos, desarmamento da população, os papel das redes sociais virtuais, pânico social, tratamento dado a crianças e adolescentes, sensacionalismo e espetáculo midiático, revitimização, competição desmedida, capitalismo selvagem, abusos, sucateamento do ensino, doenças mentais foram alguns dos aspectos comentados por aqui e ali. “Momento luminoso, carinho, sensualidade, luxúria, fantasia, sonho, felicidade, você encontra na minha cidade. Você encontra nesta cidade”.
As explicações variadas vieram na tentativa de encontrar causas e culpados para o crime chocante da vez, que, paradoxalmente, abafa quaisquer outras misérias e descasos que acontecem ao mesmo tempo em que os traz ao foco pela via indireta. Foi assim que o assunto inédito no Brasil tomou conta do almoço, da carona, do café, do trabalho, do boteco num mexe e remexe incessante e, talvez, inócuo. “Sonhando o dólar caiu, cruzeiro subiu. Numa boa! Tirei a escada e beijei Davidowa. Ela continua oferecida e sorridente. Chega sempre atrasada, mas me deixa contente... Olha aí! Ela quer que eu esfrego. Ela quer que eu sacudo. Ela quer que eu sapeco. O que que ela quer? Ela quer um repeteco. Diz! O que que ela quer? Ela quer um repeteco”
Ouvindo e lendo as incontáveis versões sedutoras para justificar a atitude do rapaz atirador, avistei uma catarse coletiva por meio da qual os espectadores purgaram suas paixões, sentimentos de terror, piedade, autorrepressões. E, mais, uma notável quase santidade individual, sem mea-culpa. “Dei bandeira dois prá não dá bandeira. Escuta finge que não vê. Enrola e roda a noite inteira... É tudo, nada é nada, assim filosofou Dom Maia. A cabeça do Olivetto é igual a uma cabeça de negro. Muito QI e TNT do lado esquerdo”.
Aos críticos e analistas da vida alheia, faltou expurgar as próprias mazelas. Reconhecer em si a contribuição para a ocorrência das tais “causas” atribuídas ao evento estarrecedor. Faltou a cada um dos espectadores e mensageiros assumir que faz parte do todo e da mesma cegueira em variadas dimensões. “O tiranossaurus REX mandou avisar que prá acabar com a malandragem tem que prender e comer todos os otários. Olha aí meu bem! Prudência e dinheiro no bolso, canja de galinha não faz mal a ninguém”.
Faltou dizer que crueldade e covardia se alternam conforme o lado em que se está da espada. Essa história em repetição é um oportuno e confortável desvio do olhar de si mesmo para a insanidade do outro. Wellington apontou o cano contra cabeças para mostrar que ninguém é inocente ou puro. Exaltou a condição humana e, também, o sofrimento calado dos invisíveis de toda natureza. Ele deu a senha. E incluiu na pauta brasileira muita munição (uma gama de temas), diuturnamente, disparada e responsável por outras vítimas a cada segundo, que provavelmente será esquecida até a próxima bala perdida em Copacabana. “Engenho de Dentro, quem não saltar agora só em Realengo. Engenho de Dentro, quem não dançar agora só no próximo baile em Realengo”.
____________
*A autora do presente artigo utilizou trechos da música "Engenho de Dentro", de Jorge Ben Jor, no final de cada parágrafo para "ilustrar" as ideias durante o texto.
____________
*A autora do presente artigo utilizou trechos da música "Engenho de Dentro", de Jorge Ben Jor, no final de cada parágrafo para "ilustrar" as ideias durante o texto.
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