GALENO: o mistério do simples
Exposição Caixa cultural Brasília
Texto e fotografias por Solange Perpin
Sob impacto da exposição, 12.09.2026
A ponte do rio corre. Logo mais, casinhas coloridas de Parnaíba, seu Piauí. Retrós
de linha da mãe costureira junto aos bilros de tessituras brancas. Mulher rendeira
casada com pescador. O artesão das canoas. O marceneiro da pesca. Galeno voava em
pipa de vassoura. Pião. Lamparinas e colheres de pau. Estilingues, repetição. Linhas. Rebocos. Arames.
Emaranhados. Carrinho de mão carregando dados da sorte e bolinhas de gude,
entre meninice e saber se vingarão dias melhores. Pregos e carpintaria. Traço que esculpe. Latas e
ferrugem. Organização e espaço. A plástica de vazios e cores desbotadas. Calangos
e carrancas na geometria de sua obra. O gesto da pintura que não cobre fundos.
As texturas da incompletude. A secura da escassez. O papelão. A madeira.
Dos rios do Delta do Parnaíba em 57 para o Cerrado de 64. Brazlandense
de 75. Morreu na origem em 2025. Encontrado ao lado da cama aos 68. Chamam seu
estilo de estética construtiva moderna, tal Volpi e Valentim. Fios... Poética da
memória. Do afetos e artefatos. Movimento de nostalgia que me rodopia em instalações. Ergue o tempo nas esculturas de si. Figurativo. Figuração. Simbolismo sem simplificação. Galeno me encanta.
“Percebi que para encontrar um caminho
próprio eu teria que olhar para dentro de mim e recuperar a minha infância às
margens do Rio Parnaíba. Então, comecei a trabalhar com os carretéis que a
minha mãe usava, com os anzóis do meu pai, com os carrinhos de lata de sardinha
que a gente fazia”, disse ele.