Aviso importante:

A visualização deste blog fica melhor em computador. Todos os textos (e esboços) postados neste blog são de autoria de Solange Perpin
(Solange Pereira Pinto). Portanto, ao utilizar algum deles cite a fonte. Obrigada!

domingo, 14 de junho de 2020

Meus cantos 7 - Versinhos de quarentena



"Nos cantos do lar encontro inspiração
No encanto das palavras descubro forças
No incômodo de mim me desencontro"


Por @solangeperpin








Notinha: Eu criei o projeto rotina poética com o objetivo de encontrar versinhos pelos cantos do meu lar e encantar os meus dias de quarentena sem sair de casa. os versinhos livres são postados diariamente no Instagram do meu ateliê @atocomtexto  

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sábado, 13 de junho de 2020

Meus cantos 6 - Versinhos de quarentena


"Somos pensamentos, sensações, sentimentos e emoções
Vestindo-me de azul reinam realidades em  fantasias"


Por @solangeperpin








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Meus cantos 5 - Versinhos de quarentena




"Das inutilidades que habitam meu ser
 enlaço os fios que alegram meu olhar"


Por @solangeperpin










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sexta-feira, 12 de junho de 2020

Meus cantos 4 - Versinhos de quarentena




"Suco na casca a natureza traz, mas
o sumo do instante é você quem faz"


Por @solangeperpin






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quinta-feira, 11 de junho de 2020

Meus cantos 3 - Versinhos de quarentena



"Deixa eu brincar de ser feliz, diz a música
  Deixe-me ler até morrer,  grito na estante"


Por @solangeperpin










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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Meus cantos 2 - versinhos de quarentena





"vida veloz

vele o aconchego"



Por @solangeperpin









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terça-feira, 9 de junho de 2020

Meus cantos 1 - Versinhos de quarentena





“Oh, céu de maio que brinda matizes
Ensine que vida pode ser cor de rosa”



Por @solangeperpin










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sexta-feira, 30 de março de 2018

Uma carta a Patti Smith ou uma resenha-autobiográfica para uma biografia


Brasília-DF, 29 de março de 2018

Querida Patti,

Posso lhe chamar assim? Desde que fui apresentada a você, não consigo esquecer a determinação capricorniana configurando seu trajeto. Apesar de a sua idade ser próxima a da minha mãe, três anos a menos, eu jamais poderia ser sua filha; pois, desculpe-me o atrevimento, eu poderia ser você.

Aqui é outono de 2018, e conheci nesta semana o seu verão de 50 anos antes. Deixe-me explicar o meu assombro. Eu nasci quando você partiu para o abrigo mútuo que gestaria dois artistas em Nova Iorque. Fui parida em novembro de 1967, mesmo ano em que Robert Mapplethorpe comprou aquele singelo colar da Pérsia, feito de duas placas de metal esmaltado unidas por pesadas contas negras e prateadas, como um escapulário muito velho e exótico, o qual você adorava copiar quando trabalhava de caixa na livraria Brentano. Era assim mesmo?

Você me contou que esse colar foi a senha para, em seguida, você pedir a ele que lhe salvasse daquele escritor de ficção científica desconcertante. Lembro-me que Robert fingiu ser seu namorado e lhe pagou um egg cream, salvo engano, a bebida preferida dele (leite, água com gás e xarope de chocolate). Dali em diante, eu sei, pactuou-se uma existência amorosa e artística entre vocês. Fiquei encantada com tamanha cumplicidade e encontro tão anímico.

Patti, fiquei pensando quantas manhãs famintas e noites criativas são necessárias para transformar alguém em artista! A menina má tentando ser boa e o bom menino tentando ser mau. Misturados em luz e treva, em claro e sombra. O diálogo visual e as memórias fundidas de épocas fodidas. Um encontro para se encontrarem. Histórias de trocadilhos e descobertas nada fajutas marcaram Bob e você. Lindo isso!

Outro dia, minha filha disse que a gente realiza na juventude-adulta a aura daquilo que se admirou na infância e ainda não se podia realizar por pura falta de idade e recursos. Eu era criança quando você experimentava ser você. E ele, ele. A década de 70 foi a da minha infância em um país sob a ditadura e repressão. Do outro lado do equador, estava você vivendo intensamente a cultura de uma época pop.

A geração beatnik, a busca da liberdade, quebra de tabus, o festival de música Woodstock, o movimento Hippie, o estilo de vestir com a filosofia de paz e amor, as calças boca de sino, estamparia colorida e batas leves. Sei, também, que na mesma época, a moda se tornou unissex pela primeira vez com uma estética andrógina e individual. Enfim, a ruptura de gêneros e, pasme Patti, somente agora, no Brasil, se insere nas mídias e cabeças. Quanta demora, céus!

Devo lhe dizer que achei criativo o estilo transgressor de calças rasgadas, rebites, alfinetes, jaquetas de couro e cabelos com cortes e cores que marcou o movimento punk, do qual você foi grande influência, além, é claro, do seu estilo particular de música fundindo rock, punk e poesia recitada. Genial, Patti! Não canso de escutar seu LP Horses, já no youtube. E, a música Glória, em sua voz rouca guitarrada é estupenda!

Escrevendo aqui-agora, percebo que esse ar dos anos setenta conduziu meu jeito de enxergar como minha vida deveria ser construída. Roupas soltas e ideias livres, nada de aprisionamento. Entende, agora, por que eu precisava tanto falar com você hoje? Uma necessidade sincrônica de compartilhar como eu me identifiquei com a fusão simbiótica de Robert e você, registrada em primeira pessoa nas quase 300 páginas de “Só garotos”.

Percorri lado a lado, as pinturas e os desenhos do subconsciente, as mandalas, o dadaísmo e o surrealismo, os aniversários presenteados com livros, os desenhos emparedados, os poemas assoalhando o chão, a lealdade eternizada entre duas pessoas, o sofrimento de ter que abraçar a morte após parir a vida entre outros momentos tão fortes que você narrou. Vi-me na clareza da sua própria imperfeição traduzida em um broche de patins roubado. Até a Luluzinha em quadrinhos, lidas para Stephanie, esparramaram-se sobre minha cama durante anos. Sabe Patti, não quero me alongar demais, por isso vou resumir minhas interseções.

Dos olhos de Robert, sublinhei o meu gosto por rituais, altares, campo de estrelas azuis, a timidez e uma natureza meticulosamente escorpiana. As cores fora de lugar, as distorções de imagem, a alquimia da mistura, as assemblages, as instalações, a curiosidade, o experimento, o processo, o improviso, o jazz-visual.  Por que não a neve roxa, pele verde e sol de prata? As bijuterias tecidas de absurdos. O dilema da invisível lealdade familiar. O filho obediente, até na escolha da carreira que lhe foi exigida. A igual percepção de que ninguém veria o que ele havia visto; ninguém entenderia. Entendo o quanto ele estava acostumado a essa sensação sentida por toda a vida, embora na primeira parte agisse como se tivesse culpa, procurando aprovação do pai, professores e pares. Inseguro, não sobre seu desejo e objetivo, mas sem a certeza se era uma pessoa boa ou não; se era altruísta ou se era demoníaco. Era artista, nisso não havia dúvida. Disso, ele sabia. Eu inclusive.

Dos seus olhos, Patti, recortei de mim o seu interesse pelo budismo, o alívio que encontrou em Rimbaud e sua inteligência irreverente. Preciso confessar que eu sinto igual amor secreto por autores geniais. Compreendo o seu êxtase ao se deparar com as chaves para uma linguagem mística do tipo que se devora sem ainda ser capaz de decifrar. Amor aos versos, à linguagem, à memória. Ah, comungo da sua vontade de independência familiar e a mesma febre para construir arcanjos que livrem os dias dos horrores mundanos da vida proletária. Obrigada pela dica sobre fazer bicos e frilas para manter a sobrevivência com liberdade rumo ao castelo que se deseja construir. Tenho apostado nisso!

Como você, eu diria, já consegui roer certas cordas com a fé de que ninguém estava me esperando, mas tudo esperava por mim. Não sem antes encontrar um lugar seguro para dormir, algo para comer, ainda que revestida da mesma melancolia inexplicavelmente infinita que nos compõe. Economizar para investir em material de artes tem sido constante, assim como os momentos circundados de objetos simbólicos, cacarecos afetivos e disposição para empenhar energia quando o outro mais importante precisa de nós.

Não tive a “sorte” de respirar o mesmo ar de músicos, poetas, escritores, pintores e outros seres incorporados de arte, como vocês fizeram na época do hotel Chelsea em NY. Aqui na minha cidade, Brasília, os monumentos históricos recheiam uma cidade que vive em torno da política e do governo. Arte aqui é arquitetura, assunto para outra ocasião, ok? Preciso finalizar esta prosa.

Patti, quero registrar o quanto admirei sua andança até o encontro com Saint, seu guia, um cherokee negro com um pé na sarjeta e outro na Via Láctea. Vou revelar um arrependimento: não tive a sua coragem de romper estradas, vestida de macacão de algodão e uma mala de xadrez amarelo e vermelho na mão. Sinceramente, queria ter conseguido sair da minha cidade original e descortinar lugares mais distantes.

Lamento por seus dias de exaustão, fome e longas buscas pela sobrevivência desfilando estropiada a 5ª Avenida por semanas, por ter que dormir na grama, metros e cemitérios, por comer pão árabe com talos de aipo. Lamento por Robert e Sam.

Guardo com carinho a imagem do toco de giz vermelho que desenhou calçadas e foi um amuleto para você continuar sua busca pela arte. Robert se consagrou na fotografia e ficou rico como sonhava. Você, Patti, se tornou uma cantora influente, poeta e escritora premiada. Agradeço-lhe por ter me contado, por deliciosas horas, uma parte da sua história. É inspiradora. Sou feliz por você existir.

Com carinho,

Solange Perpin

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Alegrias reeditadas

Estávamos tomando um chá em uma década futura. Comemorando qualquer momento de vida, não importava. Tínhamos o mesmo ar adolescente dos primeiros encontros. Risadas frouxas, cabelos fartos, dúvidas existenciais, medos infantis de solidão, roupas justas e lábios brilhantes de rosa "boca louca". Ali, distantes do agora, brindamos com xícaras. No canto dos olhos, sulcada em dobras, a certeza de que a mente insiste em manter intacta as alegrias de outrora. Kalina Benedetti Henshall,Adrianne Fecondo e Rita De Cassia Vivas obrigada por habitarem minha memória.

domingo, 7 de setembro de 2014

literatura



A segunda edição da Revista Bacanal tem lançamento no dia 9 de setembro (terça), às 19 horas, no Cristal Bar e Restaurante (415 sul). A publicação funde diversas ideias, experiências e estilos. O evento contará com a presença de diversos autores e artistas gráficos, muita gente simpática, bebidas e comidinhas. A primeira edição da revista também estará disponível.
O encontro vai reunir os autores e editores sobre esse belo trabalho que participam desta edição, como : Alan Tórma, Ana Cristina Silva, AnnArkista de Cristo, Andre Luiz Renato, Antônio Donizeti Pires, Bruno Costa (Eu Ovo Som), Carlos Eduardo Marcos Bonfá, Estefânia Sandryely, Fábio Lucas Vieira, Fernanda Silva Queiroz, Flávio Siqueira, Jairo Macedo, Julyete Farias Louly, Leonardo Simão, Luiz Reis, Maiesse Gramacho, Manoel Rodrigues, Marcelo Araújo, Marco Magalhães, Marlus Alvarenga, Priscila Rocha, Salvio Melo Fernandes, Solange Pereira Pinto, Vavá Afiouni, Krishna Passos, Ronan Lucas.
Serviço: Revista bacanal – Lançamento da segunda edição
Data: 9 de setembro (terça), às 19 horas
Local: Bar e Restaurante Cristal (CLS 415 – Bloco A – Loja 2 – Asa Sul)
Entrada franca
Classificação indicativa: Livre.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A dona da casa


Para Noll e Rosa
Por Solange Pereira Pinto, 9.12.13

Entre o encanto e a frustração, sou eu mesma vivendo! De nota em nota, de frase a enredo, me faço. Com muito verde e flores multicoloridas, converto em aguadas de aquarela o meu último chamado mítico.
No brilho da garrafa estão as lembranças que você escolheu, dizem. E lá estava, em reflexos distorcidos, a imagem de um bosque salpicado de mini-buquês e lamparinas empinadas às estrelas como vaga-lumes saltitantes. E com a sutileza do clima de campo, a calma e o vazio do silêncio se estendiam até abraçar o sol de mim num repente que acordou minha alma horizonte.
Lembro-me dos referenciais orientais que primam pela delicadeza. Recolho da imaginação breves jardineiras encaixadas nos cantos como quem celebrou a iniciação dos seus sentidos quase adormecidos dos desejos alheios. Era exatamente o que a dona da casa queria: situar-se em um momento inesquecível!
Revejo o bosque das cerejeiras. Aquele mesmo que tantas vezes me acolhe de relance no espelho enevoado dos acontecimentos. Somente agora, sem o tumulto mental das emoções atrapalhadas e longe da cegueira instantânea que me remeteu nublada, em segundos, à sombra paralisante, encontro – em um ambiente tão especial – o cenário perfeito a formular a pergunta da vida: onde está a ótima ideia de todos os detalhes?
“É a Casa Petra”, responde a loucura mais sã, que se refez a partir dos movimentos circenses: um desejo! – “Gosto de desconstruir e construir novamente”, vem rodopiando de mãos dadas com o eco. Na praia, na fazenda... A sensação que procuro é essa: a sutileza das coisas para recriar as relações.


sábado, 5 de outubro de 2013

Foco inquieto (memórias de um processo criativo)

Minha mente inquieta e imaginativa saltita entre os temas como um executivo que, em dias de garoa, corre entre os carros da Avenida Paulista para se desviar do atraso e bem ali procura as marquises vagas para apressar o passo. 

Diante da mesa de trabalho, começo planejar uma oficina e logo abro a caderneta de bolsa para anotar uma ideia, porém lá está - em caixa alta, semi rabiscada - outra ideia aguardando sua vez de ser descrita na sobra do tempo, que raramente me deixa restos. 

Atendo seu pedido, e começo a anotar seus detalhes, quando um poema inesperadamente resolve aparecer e mudar o rumo da escrita. Dos versos confessionais, em cinco linhas, se traveste em história genérica de livro infantil. Mais uma vez cedo. 

As palavras vão me contorcendo para lá e pra cá, fazendo de mim um joguete que não se estabiliza ao cair das horas. Flexiono e não reprimo o desfoco que me estica à exaustão. Deixo me levar pelos pensamentos curiosos, impulsivos e visitantes durante o meu processo criativo. Nesse instante tudo é brinquedo, inclusive eu.


domingo, 1 de setembro de 2013

Bioversaria (para Van Gogh)



Penteava a noite
para trançar as estrelas

cada mecha de escuridão
entrelaçada em seus dedos
desfiava a memória
que apressadamente descia a escada dos dias

desaventuranças
cacheadas por dissabores
se embaraçavam aos prazeres escorridos do tempo por fazer

o assobio prateado
cortou a lembrança minguante
traçara um olhar horizonte
piscando a lua na raiz das horas restantes

amanheceu ruiva a saudade do se
e descabelada assoprou a escuta
até quedar sua orelha.

Girassóis insistentes repicavam a agonia
Sem bastar sua dança de tintas
amarelou o sonhar sobre a cadeira vazia

(Solange pereira pinto, 1 de setembro de 2013)

domingo, 16 de junho de 2013

Plástica ou terapia?


Diálogo sobre #autoestima:



- Nossa, ele é tão bonito, charmoso, inteligente... tem cargo de coordenação... mas se deprecia o tempo todo...
- hum... 
- ele está sempre se diminuindo nas situações, dizendo que é péssimo, que é horrível, que é isso e aquilo...
- hum... e ele faz #terapia?
- não, ele faz plásticas...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

saudade sem nome

saudades do que não existiu,
mas que de alguma forma eu inventei em desejo... 
saudades do que poderia ter sido, 
mas não havia como ser... 
saudades do que ouvi dizer,
mas ninguém nunca falou...
saudade estranha abraçada com a tristeza,
mas que eu nem sei exatamente do quê.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

estímulo

de repente meu pai, que mora longe e raramente nos falamos, me liga e diz: vc é minha musa, a primeira de todos os filhos. a mais inteligente, com QI 180 (isso é bom?, pensei). "vc pode ser o que quiser minha filha. pode chegar aonde quiser". É tão bom a gente ouvir palavras de estímulo, ne? #emocionei

sexta-feira, 6 de julho de 2012

E a certeza me perguntou


à  Miza Vidigal que, desde meu nascimento como mãe, tem me ajudado a matar dúvidas, a Ana Cláudia e ao Manoel Rodrigues  que têm o dom tirar dúvidas cinzentas.


  
quando a dúvida morreu

Por Solange Pereira Pinto
Em 5.7.2012












Quando a senha do banco entrou e a máquina vomitou os extratos dos últimos seis meses, eu tive certeza. O problema é que quando matei uma dúvida, nasceram outras dez. Eu explico.


Foi agora mesmo, quase de repente, que a certeza veio. Também por um triz ela pode ir embora. Sei disso. Estou aqui tentando contê-la entre os dedos, para ela me aconselhar imediatamente. Se você me perguntar se são bons os conselhos que a certeza tem, já não tenho tanta certeza. Mas tento ouvi-la, pois a dúvida-mor já perturbou demais. Sei que a atual é uma certeza escorregadia, igual quando a gente tenta segurar a espuma do mar com as mãos. Enquanto a certeza foge, a dúvida perpetua. Oh, sina!

 Voltando ao assunto. E não é que a primeira pergunta que veio depois da certeza aparecer foi “quando morreu a dúvida”? Isso deve ser sabotagem, só pode!


Em uma situação quase congênita, a dúvida tem me rondado os dias; melhor dizendo, os meses, os anos. Uns 30 talvez. Como um cão pidão, ela não late, nem me larga. No café da manhã, refleti sobre essa entrona de outrora. Vi que não é filha única, não tem uma forma somente, tem duração imprevista e alguns combates possíveis.

Percebi que a dúvida não é ostensiva, feito um guarda de trânsito a sinalizar com apitos e braços abertos. Ela é como poeira em móvel de ipê, quase invisível; marcando as pontas dos dedos de marrom. Ela é assim mesmo, um tanto invasora das digitais. Ontem, ela se fez notar quando peguei o bilhete grudado no monitor da televisão. Ai que dúvida chatinha!

Ela, muitas vezes, chega num envelope do correio; quando abro e vejo que não sei bem o que fazer com aquela notícia. A dúvida já chegou por e-mail, torpedo e telefonema. Até por panfleto no para-brisa a danada me pegou no estacionamento do shopping. Eu era bem mais jovem quando isso ocorreu. Depois disso, aprendi. Eu jogo o folder direto no cesto, para a dúvida não ter chance de entrar comigo no carro. Dúvida quando cola é um saco para tirar.

Tenho notado que ganhei mais dúvidas ultimamente do que na década de 80. Ou foram elas que mudaram de forma e jeito? Será? Temos sempre um tanto igual de dúvidas? Hoje tem uma turma delas aqui batucando o meu peito e desorientando o meu juízo. E, por isso, vou falar dela, fazer fofoca mesmo. Dane-se! Cansei!


A dúvida vem no ar mais seco e também nos dias chuvosos. Na primavera, no verão, no inverno e no outono. Ela não tem estação preferida, ela pode me orbitar em qualquer clima ou tempo, época ou data comemorativa. Em festas de aniversário, principalmente, confesso, ela tem me dado um trabalhão. E, quando insiste demais, me sento com ela no sofá, encaro seu centro, fuzilo e vejo um DVD antigo para relaxar. Opto por ficar comigo, então ela vai embora batendo o pé porta afora e convidando, vez por outra, a culpa para entrar. Ela é terrível; cruel até.

Acho que ela gosta de madrugadas. Pensando bem, da hora do almoço também. Ah, sei lá. Como um sino, a dúvida chega a me ensurdecer nos momentos mais frágeis. E quando ela combina com os hormônios oscilando? Aí é quase doença. Eu até choro. Choro de dor de dúvida.

A dor de dúvida é estranha. Ela pode aparecer na garganta, na cabeça, na coluna. Em uma amiga, ela virou pneumonia. Na outra, torcicolo. Dependendo de onde ela se instala, dói até sangrar. Já tive dúvida que quase me matou do coração, pulsando a quase 120 batimentos por minuto. Foi dúvida maquiada de pânico, tenho quase certeza de que viraria síndrome em pouco tempo.

Lembro-me que, uma desse tamanhão, só foi embora quando radicalizei e chutei o mestrado precipício abaixo. Fui tão corajosa que fiquei olhando a dúvida se espatifando lá longe. Não é que a danada parece ter sete vidas e vez por outra se esconde em um livro ou outro daquele tempo? Afff, dá canseira tirar a dúvida de tudo. Haja faxina!

Recentemente, descobri algumas formas de perceber se ela está por perto. Sabe quando você não consegue levantar da cama em uma rotina lotada? Pode ser ela lhe enfraquecendo para você não matá-la. A dúvida se mantém esbelta quando se alimenta de angústia com calda de sofrimento. Ou quando engole mais uma fatia de baixa auto-estima, daquelas bem magrinhas de autoconfiança.

Há casos em que ela também avisa a chegada, quando nos afastamos cada vez mais do trim-trim-trim do telefone, receando ser a pessoa XYZ. Pode ser ela nos mostrando nossas fantasias e inseguranças mais infantis. A dúvida dá risada quando a gente constrói castelos de ilusão e medos. No pique-pega, atordoa. Ela embaralha o nosso querer sumir com o querer ficar. E, assim, a gente se esconde junto com ela.

Porque a dúvida gosta mesmo é de fazer companhia. Tão egocêntrica que é, quer a gente pensando nela todo o momento.  Dúvida é marrenta. Ela dá um jeito de chegar e dar seu “oi” até no horário político, interrompendo a novela que ajudava a gente a se livrar dela. A dúvida se multiplica feito piolho; não sai da cabeça e coça as ideias deixando as sinapses arrepiadas de tristeza. Se a gente se livra dela em uma decisão, aparecem logo outras tantas. Alguém sabe qual é o remédio que mata dúvidas para sempre?

Agora, problemático é quando a dúvida paralisa. Dizem que uma facção duvidosa se chama dilema, do tipo “se ficar o bicho pega e se correr o bicho come”. Detesto essas dúvidas mais sofisticadas, adultas mesmo. O antídoto que normalmente uso é a amiga ética e a prima lealdade. Elas têm me ajudado a mandar um monte de dúvidas embora. Situação pior vem com a aporia, que impossibilita qualquer conclusão ou resposta. Essa dúvida é de matar a gente. Haja terapia.

Nessa multiplicação moderna de dúvidas e maior escassez de certezas, tenho muita vontade de me mandar para a Terra do Nunca, subir no abacateiro para ver o sol se por e a noite alertar que menos um dia existe. Mas voltar à infância não dá, teria por penalidade um turbilhão de dúvidas por vir. Melhor não.

Ou quem sabe, poderia me mudar para longe das cidades cheias de trânsito, contas, futilidades, consumo exagerado, comparações cruéis, modelos inatingíveis, informações desencontradas, exibições de todo tipo e, assim, deixar para trás esse modelo metrópole que fabrica um monte de dúvidas por segundo, antes mesmo de a gente piscar. O problema é que não sei qual dúvida se acomodaria sorrateira em minha bagagem.

As dúvidas pequenininhas são também ardilosas e intrigantes. Claro que não estou falando daquelas dúvidas bobinhas, que aparecem na sorveteria entre os potes de sabores tão exóticos experimentados quando estamos sozinhos. Nem me refiro àquelas transparentes grudadas nas vitrines de bolsas e sapatos coloridos, que geralmente pulam em nossa frente durante o sobe e desce dos olhos.

Estou falando daquele tipo de dúvida que domina um jantar inteiro, quando titubeamos entre dar ou não o “primeiro beijo” em quem estamos apaixonados e acabamos de convidar para uma saída “sem maiores interesses”.  Obviamente, que esta não chega aos pés daquela “casar ou não casar” e mais longe ainda está da dúvida derradeira “separar ou ficar numa relação emocionalmente insatisfatória”. Essa me pegou por três anos antes mesmo de tentar o “sim”. Uma dúvida para lá de maluca. Pensando bem, o tamanho da dúvida quem dá é cada um, né? A dúvida de um, pode ser a certeza do outro. Tem medida igual não. Esquece.

Como acabar com elas? Acho que cada pessoa tem seus segredos e cria suas armadilhas para despedaçar as dúvidas. Tenho uma amigona que é craque em matar um monte das minhas. Ela me conhece tão bem e faz perguntas tão inteligentes para a dúvida, que ela sai correndo de vergonha e não volta mais. Em compensação, um amigo parece plantador de dúvidas, a gente leva uma e volta com 50; ele devia ser economista. Deixa pra lá.

Já destruí dúvidas com livros, no Google e em manuais. Na terapia me livrei de algumas dúvidas de mim e ganhei outras. Com especialistas, derrubei várias de vários níveis e temas. Perguntando “na lata” também. Revelando-a aos cúmplices dela idem (porque tem gente que gosta implantar dúvida como se fosse um chip nos miolos do outro). Escondida é que ela não pode ficar. Se tem uma coisa que dúvida foge é de plateia e palco. Ela gosta de ficar dentro da cabeça, rodopiando na mente, construindo as paranóias e os absurdos do “se” e “se” e “se”. Dúvida grandiosa, orgulhosa, exposta na mesa do jantar, para todos, é quase assassinato a sangue frio. A dúvida detesta tamanha ousadia.

Aliás, uma acabou de me soprar no ouvido que não me largará até morrer. Essa é maior que o pé de feijão do João. Será? Fiquei com medo dela. Não! Saia daqui agora, está me ouvindo? Não vai me obedecer? Então vamos ver quem ganha essa luta!

Entendi quem você é e agora me desafiou! Vou lhe tornar tão imensa, tão grande, tão gigante, que você ficará tão evidente, mas tão evidente, que será impossível não olhar para você todos os segundos do hoje ao amanhã. Você ficará do meu tamanho e, então, será você ou eu. Você está me deixando uma única saída: matá-la no enfrentamento! Não ouvirei mais os seus “senões” e “porém”.

Tomara que a minha coragem esteja antenada escutando essa conversa e chegue a tempo para agir ou tudo ficará na mesma. Dai, mais uma vez, ouvirei os queridos amigos dizendo: “calma, vai passar... dê tempo ao tempo! Amanhã será outro dia”.  É verdade que algumas dúvidas fracotes morrem quando o sol nasce, mas outras prosseguem pela eternidade quando não olhamos direito para elas. Cansei de alimentá-las de covardia e hipóteses negativas. Levei meia dúzia delas ao papel e materializei sua dimensão. Estou pronta.

Logo após sair do caixa eletrônico, picotei os extratos bancários, fiz confete deles lixeira abaixo, levantei a cabeça, mirei a porta, entrei no carro, rasguei a alma e, sinceramente, perguntei: quantas dúvidas estão na fila? Mande uma a uma, que estou pronta para enterrá-las. “Enquanto houver sol, ainda há de haver saída. Nenhuma idéia vale uma vida”.

Eu, acompanhada

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