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Todos os textos (e esboços) postados neste blog são de autoria de Solange Pereira Pinto. Portanto, ao utilizar algum deles cite a fonte. Obrigada!

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Alegrias reeditadas

Estávamos tomando um chá em uma década futura. Comemorando qualquer momento de vida, não importava. Tínhamos o mesmo ar adolescente dos primeiros encontros. Risadas frouxas, cabelos fartos, dúvidas existenciais, medos infantis de solidão, roupas justas e lábios brilhantes de rosa "boca louca". Ali, distantes do agora, brindamos com xícaras. No canto dos olhos, sulcada em dobras, a certeza de que a mente insiste em manter intacta as alegrias de outrora. Kalina Benedetti Henshall,Adrianne Fecondo e Rita De Cassia Vivas obrigada por habitarem minha memória.

domingo, 7 de setembro de 2014

literatura

revista bacanal



A segunda edição da Revista Bacanal tem lançamento no dia 9 de setembro (terça), às 19 horas, no Cristal Bar e Restaurante (415 sul). A publicação funde diversas ideias, experiências e estilos. O evento contará com a presença de diversos autores e artistas gráficos, muita gente simpática, bebidas e comidinhas. A primeira edição da revista também estará disponível.
O encontro vai reunir os autores e editores sobre esse belo trabalho que participam desta edição, como : Alan Tórma, Ana Cristina Silva, AnnArkista de Cristo, Andre Luiz Renato, Antônio Donizeti Pires, Bruno Costa (Eu Ovo Som), Carlos Eduardo Marcos Bonfá, Estefânia Sandryely, Fábio Lucas Vieira, Fernanda Silva Queiroz, Flávio Siqueira, Jairo Macedo, Julyete Farias Louly, Leonardo Simão, Luiz Reis, Maiesse Gramacho, Manoel Rodrigues, Marcelo Araújo, Marco Magalhães, Marlus Alvarenga, Priscila Rocha, Salvio Melo Fernandes, Solange Pereira Pinto, Vavá Afiouni, Krishna Passos, Ronan Lucas.
Serviço: Revista bacanal – Lançamento da segunda edição
Data: 9 de setembro (terça), às 19 horas
Local: Bar e Restaurante Cristal (CLS 415 – Bloco A – Loja 2 – Asa Sul)
Entrada franca
Classificação indicativa: Livre.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A dona da casa


Para Noll e Rosa
Por Solange Pereira Pinto, 9.12.13

Entre o encanto e a frustração, sou eu mesma vivendo! De nota em nota, de frase a enredo, me faço. Com muito verde e flores multicoloridas, converto em aguadas de aquarela o meu último chamado mítico.
No brilho da garrafa estão as lembranças que você escolheu, dizem. E lá estava, em reflexos distorcidos, a imagem de um bosque salpicado de mini-buquês e lamparinas empinadas às estrelas como vaga-lumes saltitantes. E com a sutileza do clima de campo, a calma e o vazio do silêncio se estendiam até abraçar o sol de mim num repente que acordou minha alma horizonte.
Lembro-me dos referenciais orientais que primam pela delicadeza. Recolho da imaginação breves jardineiras encaixadas nos cantos como quem celebrou a iniciação dos seus sentidos quase adormecidos dos desejos alheios. Era exatamente o que a dona da casa queria: situar-se em um momento inesquecível!
Revejo o bosque das cerejeiras. Aquele mesmo que tantas vezes me acolhe de relance no espelho enevoado dos acontecimentos. Somente agora, sem o tumulto mental das emoções atrapalhadas e longe da cegueira instantânea que me remeteu nublada, em segundos, à sombra paralisante, encontro – em um ambiente tão especial – o cenário perfeito a formular a pergunta da vida: onde está a ótima ideia de todos os detalhes?
“É a Casa Petra”, responde a loucura mais sã, que se refez a partir dos movimentos circenses: um desejo! – “Gosto de desconstruir e construir novamente”, vem rodopiando de mãos dadas com o eco. Na praia, na fazenda... A sensação que procuro é essa: a sutileza das coisas para recriar as relações.


sábado, 5 de outubro de 2013

Foco inquieto (memórias de um processo criativo)

Minha mente inquieta e imaginativa saltita entre os temas como um executivo que, em dias de garoa, corre entre os carros da Avenida Paulista para se desviar do atraso e bem ali procura as marquises vagas para apressar o passo. 

Diante da mesa de trabalho, começo planejar uma oficina e logo abro a caderneta de bolsa para anotar uma ideia, porém lá está - em caixa alta, semi rabiscada - outra ideia aguardando sua vez de ser descrita na sobra do tempo, que raramente me deixa restos. 

Atendo seu pedido, e começo a anotar seus detalhes, quando um poema inesperadamente resolve aparecer e mudar o rumo da escrita. Dos versos confessionais, em cinco linhas, se traveste em história genérica de livro infantil. Mais uma vez cedo. 

As palavras vão me contorcendo para lá e pra cá, fazendo de mim um joguete que não se estabiliza ao cair das horas. Flexiono e não reprimo o desfoco que me estica à exaustão. Deixo me levar pelos pensamentos curiosos, impulsivos e visitantes durante o meu processo criativo. Nesse instante tudo é brinquedo, inclusive eu.


domingo, 1 de setembro de 2013

Bioversaria (para Van Gogh)



Penteava a noite
para trançar as estrelas

cada mecha de escuridão
entrelaçada em seus dedos
desfiava a memória
que apressadamente descia a escada dos dias

desaventuranças
cacheadas por dissabores
se embaraçavam aos prazeres escorridos do tempo por fazer

o assobio prateado
cortou a lembrança minguante
traçara um olhar horizonte
piscando a lua na raiz das horas restantes

amanheceu ruiva a saudade do se
e descabelada assoprou a escuta
até quedar sua orelha.

Girassóis insistentes repicavam a agonia
Sem bastar sua dança de tintas
amarelou o sonhar sobre a cadeira vazia

(Solange pereira pinto, 1 de setembro de 2013)

domingo, 16 de junho de 2013

Plástica ou terapia?


Diálogo sobre #autoestima:



- Nossa, ele é tão bonito, charmoso, inteligente... tem cargo de coordenação... mas se deprecia o tempo todo...
- hum... 
- ele está sempre se diminuindo nas situações, dizendo que é péssimo, que é horrível, que é isso e aquilo...
- hum... e ele faz #terapia?
- não, ele faz plásticas...

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

saudade sem nome

saudades do que não existiu,
mas que de alguma forma eu inventei em desejo... 
saudades do que poderia ter sido, 
mas não havia como ser... 
saudades do que ouvi dizer,
mas ninguém nunca falou...
saudade estranha abraçada com a tristeza,
mas que eu nem sei exatamente do quê.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

estímulo

de repente meu pai, que mora longe e raramente nos falamos, me liga e diz: vc é minha musa, a primeira de todos os filhos. a mais inteligente, com QI 180 (isso é bom?, pensei). "vc pode ser o que quiser minha filha. pode chegar aonde quiser". É tão bom a gente ouvir palavras de estímulo, ne? #emocionei

sexta-feira, 6 de julho de 2012

E a certeza me perguntou

  quando a dúvida morreu

5.7.2012

Por Solange Pereira Pinto


A  Miza Vidigal, que desde meu nascimento como mãe tem me ajudado a matar dúvidas, a Ana Cláudia e ao Manoel Rodrigues, que têm o dom tirar dúvidas cinzentas.





Quando a senha do banco entrou e a máquina vomitou os extratos dos últimos seis meses, eu tive certeza. O problema é que quando matei uma dúvida, nasceram outras dez. Eu explico.

Foi agora mesmo, quase de repente, que a certeza veio. Também por um triz ela pode ir embora. Sei disso. Estou aqui tentando contê-la entre os dedos, para ela me aconselhar imediatamente. Se você me perguntar se são bons os conselhos que a certeza tem, já não tenho tanta certeza. Mas tento ouvi-la, pois a dúvida-mor já perturbou demais. Sei que a atual é uma certeza escorregadia, igual quando a gente tenta segurar a espuma do mar com as mãos. Enquanto a certeza foge, a dúvida perpetua. Oh, sina!

Voltando ao assunto. E não é que a primeira pergunta que veio depois da certeza aparecer foi “quando morreu a dúvida”? Isso deve ser sabotagem, só pode!

Em uma situação quase congênita, a dúvida tem me rondado os dias; melhor dizendo, os meses, os anos. Uns 30 talvez. Como um cão pidão, ela não late, nem me larga. No café da manhã, refleti sobre essa entrona de outrora. Vi que não é filha única, não tem uma forma somente, tem duração imprevista e alguns combates possíveis.

Percebi que a dúvida não é ostensiva, feito um guarda de trânsito a sinalizar com apitos e braços abertos. Ela é como poeira em móvel de ipê, quase invisível; marcando as pontas dos dedos de marrom. Ela é assim mesmo, um tanto invasora das digitais. Ontem, ela se fez notar quando peguei o bilhete grudado no monitor da televisão. Ai que dúvida chatinha!

Ela, muitas vezes, chega num envelope do correio; quando abro e vejo que não sei bem o que fazer com aquela notícia. A dúvida já chegou por e-mail, torpedo e telefonema. Até por panfleto no para-brisa a danada me pegou no estacionamento do shopping. Eu era bem mais jovem quando isso ocorreu. Depois disso, aprendi. Eu jogo o folder direto no cesto, para a dúvida não ter chance de entrar comigo no carro. Dúvida quando cola é um saco para tirar.

Tenho notado que ganhei mais dúvidas ultimamente do que na década de 80. Ou foram elas que mudaram de forma e jeito? Será? Temos sempre um tanto igual de dúvidas? Hoje tem uma turma delas aqui batucando o meu peito e desorientando o meu juízo. E, por isso, vou falar dela, fazer fofoca mesmo. Dane-se! Cansei!

A dúvida vem no ar mais seco e também nos dias chuvosos. Na primavera, no verão, no inverno e no outono. Ela não tem estação preferida, ela pode me orbitar em qualquer clima ou tempo, época ou data comemorativa. Em festas de aniversário, principalmente, confesso, ela tem me dado um trabalhão. E, quando insiste demais, me sento com ela no sofá, encaro seu centro, fuzilo e vejo um DVD antigo para relaxar. Opto por ficar comigo, então ela vai embora batendo o pé porta afora e convidando, vez por outra, a culpa para entrar. Ela é terrível; cruel até.

Acho que ela gosta de madrugadas. Pensando bem, da hora do almoço também. Ah, sei lá. Como um sino, a dúvida chega a me ensurdecer nos momentos mais frágeis. E quando ela combina com os hormônios oscilando? Aí é quase doença. Eu até choro. Choro de dor de dúvida.

A dor de dúvida é estranha. Ela pode aparecer na garganta, na cabeça, na coluna. Em uma amiga, ela virou pneumonia. Na outra, torcicolo. Dependendo de onde ela se instala, dói até sangrar. Já tive dúvida que quase me matou do coração, pulsando a quase120 batimentos por minuto. Foi dúvida maquiada de pânico, tenho quase certeza de que viraria síndrome em pouco tempo.

Lembro-me que, uma desse tamanhão, só foi embora quando radicalizei e chutei o mestrado precipício abaixo. Fui tão corajosa que fiquei olhando a dúvida se espatifando lá longe. Não é que a danada parece ter sete vidas e vez por outra se esconde em um livro ou outro daquele tempo? Afff, dá canseira tirar a dúvida de tudo. Haja faxina!

Recentemente, descobri algumas formas de perceber se ela está por perto. Sabe quando você não consegue levantar da cama em uma rotina lotada? Pode ser ela lhe enfraquecendo para você não matá-la. A dúvida se mantém esbelta quando se alimenta de angústia com calda de sofrimento. Ou quando engole mais uma fatia de baixa auto-estima, daquelas bem magrinhas de autoconfiança.

Há casos em que ela também avisa a chegada, quando nos afastamos cada vez mais do trim-trim-trim do telefone, receando ser a pessoa XYZ. Pode ser ela nos mostrando nossas fantasias e inseguranças mais infantis. A dúvida dá risada quando a gente constrói castelos de ilusão e medos. No pique-pega, atordoa. Ela embaralha o nosso querer sumir com o querer ficar. E, assim, a gente se esconde junto com ela.

Porque a dúvida gosta mesmo é de fazer companhia. Tão egocêntrica que é, quer a gente pensando nela todo o momento.  Dúvida é marrenta. Ela dá um jeito de chegar e dar seu “oi” até no horário político, interrompendo a novela que ajudava a gente a se livrar dela. A dúvida se multiplica feito piolho; não sai da cabeça e coça as ideias deixando as sinapses arrepiadas de tristeza. Se a gente se livra dela em uma decisão, aparecem logo outras tantas. Alguém sabe qual é o remédio que mata dúvidas para sempre?

Agora, problemático é quando a dúvida paralisa. Dizem que uma facção duvidosa se chama dilema, do tipo “se ficar o bicho pega e se correr o bicho come”. Detesto essas dúvidas mais sofisticadas, adultas mesmo. O antídoto que normalmente uso é a amiga ética e a prima lealdade. Elas têm me ajudado a mandar um monte de dúvidas embora. Situação pior vem com a aporia, que impossibilita qualquer conclusão ou resposta. Essa dúvida é de matar a gente. Haja terapia.

Nessa multiplicação moderna de dúvidas e maior escassez de certezas, tenho muita vontade de me mandar para a Terra do Nunca, subir no abacateiro para ver o sol se por e a noite alertar que menos um dia existe. Mas voltar à infância não dá, teria por penalidade um turbilhão de dúvidas por vir. Melhor não.

Ou quem sabe, poderia me mudar para longe das cidades cheias de trânsito, contas, futilidades, consumo exagerado, comparações cruéis, modelos inatingíveis, informações desencontradas, exibições de todo tipo e, assim, deixar para trás esse modelo metrópole que fabrica um monte de dúvidas por segundo, antes mesmo de a gente piscar. O problema é que não sei qual dúvida se acomodaria sorrateira em minha bagagem.

As dúvidas pequenininhas são também ardilosas e intrigantes. Claro que não estou falando daquelas dúvidas bobinhas, que aparecem na sorveteria entre os potes de sabores tão exóticos experimentados quando estamos sozinhos. Nem me refiro àquelas transparentes grudadas nas vitrines de bolsas e sapatos coloridos, que geralmente pulam em nossa frente durante o sobe e desce dos olhos.

Estou falando daquele tipo de dúvida que domina um jantar inteiro, quando titubeamos entre dar ou não o “primeiro beijo” em quem estamos apaixonados e acabamos de convidar para uma saída “sem maiores interesses”.  Obviamente, que esta não chega aos pés daquela “casar ou não casar” e mais longe ainda está da dúvida derradeira “separar ou ficar numa relação emocionalmente insatisfatória”. Essa me pegou por três anos antes mesmo de tentar o “sim”. Uma dúvida para lá de maluca. Pensando bem, o tamanho da dúvida quem dá é cada um, né? A dúvida de um, pode ser a certeza do outro. Tem medida igual não. Esquece.
 
Como acabar com elas? Acho que cada pessoa tem seus segredos e cria suas armadilhas para despedaçar as dúvidas. Tenho uma amigona que é craque em matar um monte das minhas. Ela me conhece tão bem e faz perguntas tão inteligentes para a dúvida, que ela sai correndo de vergonha e não volta mais. Em compensação, um amigo parece plantador de dúvidas, a gente leva uma e volta com 50; ele devia ser economista. Deixa pra lá.

Já destruí dúvidas com livros, no Google e em manuais. Na terapia me livrei de algumas dúvidas de mim e ganhei outras. Com especialistas, derrubei várias de vários níveis e temas. Perguntando “na lata” também. Revelando-a aos cúmplices dela idem (porque tem gente que gosta implantar dúvida como se fosse um chip nos miolos do outro). Escondida é que ela não pode ficar. Se tem uma coisa que dúvida foge é de plateia e palco. Ela gosta de ficar dentro da cabeça, rodopiando na mente, construindo as paranóias e os absurdos do “se” e “se” e “se”. Dúvida grandiosa, orgulhosa, exposta na mesa do jantar, para todos, é quase assassinato a sangue frio. A dúvida detesta tamanha ousadia.

Aliás, uma acabou de me soprar no ouvido que não me largará até morrer. Essa é maior que o pé de feijão do João. Será? Fiquei com medo dela. Não! Saia daqui agora, está me ouvindo? Não vai me obedecer? Então vamos ver quem ganha essa luta!

Entendi quem você é e agora me desafiou! Vou lhe tornar tão imensa, tão grande, tão gigante, que você ficará tão evidente, mas tão evidente, que será impossível não olhar para você todos os segundos do hoje ao amanhã. Você ficará do meu tamanho e, então, será você ou eu. Você está me deixando uma única saída: matá-la no enfrentamento! Não ouvirei mais os seus “senões” e “porém”.

Tomara que a minha coragem esteja antenada escutando essa conversa e chegue a tempo para agir ou tudo ficará na mesma. Dai, mais uma vez, ouvirei os queridos amigos dizendo: “calma, vai passar... dê tempo ao tempo! Amanhã será outro dia”.  É verdade que algumas dúvidas fracotes morrem quando o sol nasce, mas outras prosseguem pela eternidade quando não olhamos direito para elas. Cansei de alimentá-las de covardia e hipóteses negativas. Levei meia dúzia delas ao Coach e materializei sua dimensão. Estou pronta.

Logo após sair do caixa eletrônico, picotei os extratos bancários, fiz confete deles lixeira abaixo, levantei a cabeça, mirei a porta, entrei no carro, rasguei a alma e, sinceramente, perguntei: quantas dúvidas estão na fila? Mande uma a uma, que estou pronta para enterrá-las. “Enquanto houver sol, ainda há de haver saída. Nenhuma idéia vale uma vida”.


terça-feira, 19 de junho de 2012

Missão do professor


Foto: "Missão do professor: A partir do comprometimento com o processo ensino-aprendizagem, promover o conhecimento, respeitando as diferenças e estimulando a pluralidade, objetivando despertar o senso crítico e ético, assim como ampliar a consciência individual para o agir pessoal com responsabilidade  coletiva, contribuindo para o desenvolvimento humano e social". SPP"Missão do professor: A partir do comprometimento com o processo ensino-aprendizagem, promover o conhecimento, respeitando as diferenças e estimulando a pluralidade, objetivando despertar o senso crítico e ético, assim como ampliar a consciência individual para o agir pessoal com responsabilidade coletiva, contribuindo para o desenvolvimento humano e social". SPP

sábado, 5 de maio de 2012

Fresca


Fresca


Por Solange Pereira Pinto
Madrugada em Brasília, 4 de maio de 2012.



A picada do grafite ainda comichava. Havia perdido a noção de quantas vezes a lapiseira lhe ferroara, enquanto os textos agonizavam a espera do ponto. Os poros acinzentavam aleatoriamente o dorso da mão direita. Ao lado, o cigarro cuspia brasa. As pernas se agarravam descompassadas. Tanto mais as ideias enrodilhavam, a pele enrijecia. O bote certeiro dos agulhões lhe assustava. O relógio confundia-lhe a cabeça. Sabia disso e ainda assim adiava jogar a primeira palavra na página em branco. Temia jorrar suas bobagens. Os dedos duvidavam e não deixavam uma sílaba sequer escapar. Espetava mais uma vez.

O tempo ardia. A língua seca evaporava sua voz. Tomou um “engole” rápido da borracha e, antes de o medo gaguejar a coragem, escreveu firmemente: “Fresca”. Apertou duas vezes a cabeça roliça do cilindro prateado. O bastãozinho fino, mal saiu da lança pontiaguda, apontou em disparada: “O gosto de poço, fundo e espelhado, escorria pelas narinas. O barro molhado beijado de chuva tingia de laranja aquela tarde entediada. Seus pés pausavam a vontade de jogar o corpo no chão e lambuzar a pele de vulnerabilidade. Despida de si, faria sua modelagem de lama. Pensava. Voltou-se para o canto da mesa e argüiu a espera. A argila fria soprava as linhas da palma da mão esquerda, que auscultavam o bojo da moringa como se quisessem mapear o contorno de uma noite qualquer. Um assobio agudo de água penetrava, estreito, os poros terracota do pote. Alisou o tampo arredondado e num leve puxão dedilhou a fragilidade. Cheirou a infância e bebericou a memória. Sempre estivera ali, sobre a toalha crua de juta cobrindo o aparador, o cuidado da avó. As obrigações esquentavam o juízo, ela avisava. A textura porosa da saudade costurou de camponesa o avental do conto de fadas. Ao alinhavar a última frase, o cotovelo espatifou o gargalo. Em cacos, a moringa desfez o tempo”. A página molhada derreteu a lembrança e, entre sede e alívio, a menina releu “fresca”.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sinto logo me abalo

Quando a gente se abala (enraivece, magoa etc), vem logo alguém dizer: deixa isso pra lá! esqueça! é assim mesmo! E dai eu penso: quando não me abalar mais e nem me surpreender é porque morri... enquanto houver sensibilidade haverá perplexidade e, sem a primeira, eu não existo. A segunda fica por conta das pessoas sem noção que aparecem no meu caminho. Soll, 15.12.2011

domingo, 11 de dezembro de 2011

Mãe



Não somos péssimas mães não. o problema é que inventaram que mãe é "salva pátria" e isso é mentira. filho nasce pronto... desde aquele dia do X + Y. Mãe é apenas a expectadora e testemunha mais próxima da transformação da semente. Inocentemente - nós mães (culturalmente inventadas) - achamos que podemos transformar eucalipto em jatobá. E nem sempre somos da mesma espécie dos filhos, dai os conflitos. Algumas plantas não podem conviver juntas sem uma engolir ou secar a outra....

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Na onda



Tô vendo cada vez mais gente comprando neurose coletiva (como se a vida tivesse algum controle) pensando que a vida é peixe urbano! Se ligue que vida em grupo não é necessariamente um groupon...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Feira do rolo







"Troco papéis sociais por papéis estampados" 






SOllpp

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Horóscopiano


Bom dia pra vc que está alinhado com os astros! A força interior e a coragem vencerão a causalidade e a desordem dos acontecimentos. O intelecto, aliado ao conhecimento, predominará sobre o instinto. Dia propício a proteção, alegria, fertilidade. Anuncia uma mudança de ciclo,a nuvem negra vai passar e deixá-lo mais consciente e forte para enfrentar problemas. #oxalá #facebookiano

Devolva-se!

Quando sua vida sumir, sair para dar uma volta e demorar, vá atrás urgentemente dela.
Muitas vezes um sequestro de si mesmo é a salvação para dias melhores para sempre. 
Essas vidas estão muito saidinhas ultimamente... indo buscar ilusões de comercial ou de conversinha superficial de parentes artificiais, por que não mentirosos... 
Para esse tipo de sequestro, o resgate é si mesmo e a pena é salvar-se. Confie nesse crime necessário na pós-modernidade: sequestre-se! devolva-se!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

AR-quivos







Ela nunca escolhia, acumulava.

domingo, 30 de outubro de 2011

Cui-DAR







A gente só alimenta e cuida, com toda dedicação, daquilo que a gente cria ou inventa?

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

As capas dos livros que me revelam têm lugar especial





Intuitivamente fui me guardando nas estantes do escritório... os livros que guardo mais apreço e apego são aqueles que mais respondem minhas inquietudes. olhei para o lado esquerdo, neste minuto, e descobri pq a vida toda comprei certos livros ligados à cultura, contos, antropologia, fotografia, sociologia, folclore, mitologia e artes divinatórias etc.... #eureka

domingo, 23 de outubro de 2011

Cor-agem







sinto que o excesso de medo que me encolhe é sinal de muita coragem por perto...

sábado, 22 de outubro de 2011

Inimigos

às vezes se entra em uma batalha apenas para mostrar ao inimigo que ele é inimigo, pois de antemão já se sabe da desigualdade de forças e da derrota que virá. Ainda assim insistimos em ir para nos fazer representar.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Et-al








Estamos na época do eu.
Doeu...
o eu é a meta 
e quem meteu? 
é o teu ou é o tal? 
até eu, ET. 
Et al. 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Im-pulso





os "surtos" vêm junto com os papeis sociais que não queremos desempenhar naquele momento...

domingo, 4 de setembro de 2011

Quando queremos engolir a alma




Por Solange Pereira Pinto
4/9/2011




Não aprendemos a nos apaixonar pela mente de uma pessoa. Desde cedo nos ensinam a desconfiar de quem se aproxima de nós, a partir das observações de como se vestem, como agem e o que dizem. Infelizmente, nesta cultura, não nos ensinam a enxergar e valorizar o pensamento. Ou seja, o jeito como cada um constrói a sua própria realidade. Com o passar do tempo, isso fará muita diferença. Ainda que a gente mude, tem uma lógica que não se modifica tanto assim. É dela que vem a maneira particular de sentir e agir no mundo.

Dizem também que os sexos opostos não podem se admirar e, por isso, nutrir um grande desejo mutuamente sem as tais “segundas intenções”. E se assim acontece sentimos culpa.

Por vezes, achamo-nos inadequados (julgamos que estamos errados) se chega alguém e toma o peito de ardor e descompasso, quando a mente se ocupa todos os segundos da vontade de ver, rever, ouvir e alimentar ainda mais o feitiço que torna nossos dias tão mais interessantes e cheios de sentido (aquele mesmo que costumamos achar não existir quando a rotina se estabelece no cotidiano).

Não estou falando somente de amizade, sentimento fraterno de bem-querer, simpatia, grande afeição e cumplicidade. Refiro-me a encantamento. Aquele deslumbre raro que sentimos por uns poucos seres humanos. Sabe quando a gente não precisa falar e alguém entende porque pensa igualzinho? Ou simplesmente completa nossas frases com um olhar e um sorriso no canto da boca vem tão cheio de significados que o desejo é devorar o pensamento?

Tem quem nos penetra tão perfeitamente que se torna difícil resistir. É mesmo um feitiço e um poder mágico nos transforma. Começamos a imaginar aonde aquela pessoa se escondia que ainda não estava compartilhando todos os espaços e teorias de vida. A eterna busca e permanência junto aos iguais.

Mas qual é o problema que há nisso? Nenhum se a gente estiver sozinho ou não tiver um parceiro. Socialmente, escreveu-se que no casamento, namoro ou relacionamento dito sério não cabe paixão que não seja entre o casal. Mito que causa dor e sofrimento.

Há pessoas que necessitam de intensidade para viver e que a inteligência é uma capacidade tão admirável quanto um belo físico. E como manter a “fidelidade” psicológica se nem a física estamos dando conta nestes tempos mais que modernos? Não é torturante ter que reprimir o desejo de conhecer uma pessoa interessante se tudo o que mais fazemos na vida é tentar (aprender?) nos relacionar? Estaria o desejo físico, o tesão pelo corpo do outro, no mesmo patamar do desejo intelectual, a excitação pelo pensamento do outro? Podemos de fato ser livres sexualmente e mentalmente?

E o que fazer com os riscos que ameaçam a relação estável já estabelecida com aquele outro nem tão parecido assim? Nas diversas etapas da vida, cujos desejos se diferem e são típicos também da idade (ainda bem!), temos medo de romper os pactos de fidelidade, mas quais são eles? Sabemos que há casos em que a atração física leva ao envolvimento emocional e vice-versa. Há outros em que a admiração intelectual leva ao envolvimento físico e/ou emocional. Penso que são dimensões diferentes e raramente teremos (ou seremos) um companheiro que supra todas. Assim como nem sempre conseguiremos conter o que nos move nesta vida.

Há momentos e pessoas que nos fazem querer engolir a alma. Pergunto-me por que evitar se isso é tão humano e raro? No meu caso, o tesão passa bem mais rápido do que minha veneração pelos talentos do intelecto e da arte. E sei que cada caso é um caso, porém até hoje encontrei em meu caminho poucas pessoas dignas de reverência, a maior parte está nos livros, mas duas ou três ainda posso conversar ao vivo; e devorá-las com minha paixão. Viver as relações derivadas de tantos outros propósitos é muito bom, mas não há pacto que me afaste dos encontros com os iguais, pois isso me afastaria de mim. Não mais após os 40 anos de vida.


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Diz um mito que o poderoso Zeus (o deus supremo do mundo) engoliu viva sua primeira esposa Métis (deusa da astúcia e inteligência), grávida de Athena (deusa da sabedoria – logos –  e da justiça),  quando soube pelo oráculo (Gaia) que se tivesse uma filha, ela se tornaria ainda mais poderosa do que ele. Assim, para impedir o nascimento de Athena (que acabou por ser gerada na cabeça do soberano do Olimpo) ele engoliu Métis, que tentou escapar dele, mudando de forma várias vezes, mas acabou engravidando. Findo o período de gestação, o supremo deus começou a sentir terríveis dores de cabeça (pois enquanto a justiça não nasce, elas são inevitáveis). Desesperado e no limite, Zeus ordenou ao ferreiro divino Hefestos (Vulcano) que lhe abrisse a cabeça com um machado de ouro para tirar a deusa Palas Athena (imagem) Palas significa “a donzela”, para se manter sempre virgem e impor a autoridade de quem não se deixa seduzir ou corromper.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

A senha de Realengo


Por Solange Pereira Pinto


O massacre, a chacina, a tragédia, o horror ou qualquer outro substantivo repulsivo que se queira usar deu ao brasileiro, nesta semana, uma satisfação incrível: indignar-se contra tudo e todos! “Olha aí meu bem, prudência e dinheiro no bolso, canja de galinha não faz mal a ninguém*”.

Mais do que copa do mundo e final de campeonato, apuração de carnaval ou reta final de eleições, o caso da Escola Municipal Tasso da Silveira, ocorrido no dia 7/4, em Realengo (zona oeste do Rio de Janeiro), trouxe ao país um sentimento de união e opinião. “Cuidado prá não cair da bicicleta, cuidado prá não esquecer o guarda-chuva. Conversa, bitoca, espera, passa o rodo para melhorar e chama prá dançar”.

Era a vez de repassar as mazelas do país, com muita ênfase e comoção. Wellington Menezes de Oliveira, 23 anos, assassino-suicida de 12 jovens estudantes e outros feridos, protagonizou o enredo que trouxe à tona tudo e qualquer coisa que estivesse debaixo do tapete e por baixo da vista grossa de cada um de nós. “Engenho de Dentro, quem não saltar agora só em Realengo. Engenho de Dentro, quem não dançar agora só no próximo baile em Realengo”.

Bullying, desigualdade social, violência, individualismo, fanatismo, fundamentalismo religioso, importância da família, facilidade de entrada em ambientes coletivos, insegurança escolar, videogames violentos, desarmamento da população, os papel das redes sociais virtuais, pânico social, tratamento dado a  crianças e adolescentes, sensacionalismo e espetáculo midiático, revitimização, competição desmedida, capitalismo selvagem, abusos, sucateamento do ensino, doenças mentais foram alguns dos aspectos comentados por aqui e ali. Momento luminoso, carinho, sensualidade, luxúria, fantasia, sonho, felicidade, você encontra na minha cidade. Você encontra nesta cidade”.

As explicações variadas vieram na tentativa de encontrar causas e culpados para o crime chocante da vez, que, paradoxalmente, abafa quaisquer outras misérias e descasos que acontecem ao mesmo tempo em que os traz ao foco pela via indireta. Foi assim que o assunto inédito no Brasil tomou conta do almoço, da carona, do café, do trabalho, do boteco num mexe e remexe incessante e, talvez, inócuo. Sonhando o dólar caiu, cruzeiro subiu. Numa boa! Tirei a escada e beijei Davidowa. Ela continua oferecida e sorridente. Chega sempre atrasada, mas me deixa contente... Olha aí! Ela quer  que eu esfrego. Ela quer que eu sacudo. Ela quer que eu sapeco. O que que ela quer? Ela quer um repeteco. Diz! O que que ela quer? Ela quer um repeteco

Ouvindo e lendo as incontáveis versões sedutoras para justificar a atitude do rapaz atirador, avistei uma catarse coletiva por meio da qual os espectadores purgaram suas paixões, sentimentos de terror, piedade, autorrepressões. E, mais, uma notável quase santidade individual, sem mea-culpa. “Dei bandeira dois prá não dá bandeira. Escuta finge que não vê. Enrola e roda a noite inteira... É tudo, nada é nada, assim filosofou Dom Maia. A cabeça do Olivetto é igual a uma cabeça de negro. Muito QI e TNT do lado esquerdo”.

Aos críticos e analistas da vida alheia, faltou expurgar as próprias mazelas. Reconhecer em si a contribuição para a ocorrência das tais “causas” atribuídas ao evento estarrecedor. Faltou a cada um dos espectadores e mensageiros assumir que faz parte do todo e da mesma cegueira em variadas dimensões. “O tiranossaurus REX mandou avisar que prá acabar com a malandragem tem que prender e comer todos os otários. Olha aí meu bem! Prudência e dinheiro no bolso, canja de galinha não faz mal a ninguém”.

Faltou dizer que crueldade e covardia se alternam conforme o lado em que se está da espada. Essa história em repetição é um oportuno e confortável desvio do olhar de si mesmo para a insanidade do outro. Wellington apontou o cano contra cabeças para mostrar que ninguém é inocente ou puro. Exaltou a condição humana e, também, o sofrimento calado dos invisíveis de toda natureza. Ele deu a senha. E incluiu na pauta brasileira muita munição (uma gama de temas), diuturnamente, disparada e responsável por outras vítimas a cada segundo, que provavelmente será esquecida até a próxima bala perdida em Copacabana. Engenho de Dentro, quem não saltar agora só em Realengo. Engenho de Dentro, quem não dançar agora só no próximo baile em Realengo”.




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*A autora do presente artigo utilizou trechos da música "Engenho de Dentro", de Jorge Ben Jor, no final de cada parágrafo para "ilustrar" as ideias durante o texto. 

terça-feira, 8 de março de 2011

Coque




A presilha azulada sustentava o amarelo das madeixas. No topo da cabeça, feito um tronco só, fios dourados se contorciam para domar a inquietude daqueles cabelos tingidos de ardor. Crescente.

A volúpia se alongava a cada entrelaçar com os senões, guardando nas ondulações do sim e não os cheiros. O perfume da terra molhada contrastava-se à secura retorcida dos seus ais noturnos. O tempo engavetado exalava, nas ranhuras que o dorso da cama tatuou, a fúria da fêmea. Retidos, os aromas ameaçavam o oco das curvas do medo. Súbitos. Devidos. Escapariam?

Calada seguia a formar seus feixes. Fachadas. Fechada. Velada. Sem grampos de metal, os tons amadeirados traziam – em coro – o silêncio dos desejos semi-esquecidos; reprimidos. Corava-se. Nos cabelos compridos sua ânsia não podia. Ela não devia. Não. Aprontava-se para o não. Escovava-se para o não. Iluminava-se para o não.

Seu pêlo solto divergia do seu peito duvidoso. Trançava suas angústias em laçarotes de fita negra tão logo raiasse o dia. Chamava e amarrava o não. Passava o momento. Ficava o tormento. Rotineiramente, gastava-se naquele caracol penteando o tempo. Rodeava repetidamente o temor de se perder. E se perdia.

Nas voltas do pente. Em cada dente. No labirinto da serpente. Uma tristeza voraz contente. Um impulso demente. Uma fuga urgente. Uma quentura clemente. Uma clausura consciente.

Amontoados em rodas contínuas retorciam-se os anos juvenis. No alto, o chumaço grampeava a pele lisa, a penugem leve, a firmeza do corpo. Era o cume, imaginava, que apoiava as incertezas das paixões, das ausências, das impossibilidades daquilo que se promete resistir. Sucumbir.

A nuca nua, devassada, exposta, gritante, repuxada servia manhã após manhã como atalho para se chegar onde não se sabe, mas se deseja. Dedilhava, cuidadosamente, suas mechas de saudade. E sentia entre as unhas quebradiças cada fio de memória. E esticava cada cacho de mocidade. E tentava prender, mais uma vez, em círculos a juventude.

O dedo indicador conduzia rapidamente o maço da cabeleira até o centro que lhe guiava. Girava, girava, girava, girava até formar o ninho, que os sonhos escondiam. Nos tufos, sobrava-lhe a retidão.

A mão rebolava compassadamente até chegar à ponta do rabicho freneticamente enrolado. Ela sabia quantas voltas eram esperadas, necessárias. Enclausurado, no rodopio, havia um vestígio de arrependimento. À rebeldia da juba afrontaria, outrora, o couro cabeludo ralo e falho. Não agora, inventava.

Do ápice, deslizou as palmas sobre o véu natural de seu rosto e tateou a rodela tecida em oposição aos olhos. Tentou desprender os nós, retirar as prensas, soltar o manto. Resistiu. Curvou. Intuiu. Ultrapassou a cortina dos ponteiros. Mirou o velho e desgastado portão de entrada do casebre, esticou os olhos sobre a rua de pedra e ajeitou mais uma vez o seu coque. Aquele mesmo que não amanheceria.

Por Solange Pereira Pinto 
em Goiás Velho, 8 de março de 2011.
Dia Internacional da Mulher e Carnaval...

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Rimas, pobres, de sedução

Tem gente que toma a gente de jeito.

O nome se torna imã da mente
e o pensamento refém do sujeito.

O silêncio cede vaga aos batimentos
e a ausência o medo do movimento.

O relógio repete a última visão
e a espera o compasso da exceção.

A ideia fixa traz o tema
e os fantasmas os argumentos.

O dia se ocupa desse vão
e a noite tece o véu do não.

A pele tatua o enigma
e a língua mastiga o tormento.

Tem gente que toma a gente de jeito.
Não tem jeito não.


(Solange Pereira Pinto, sollpp@gmail.com)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Sem comparações





 
Sem comparações


Econômica em sorrisos e lágrimas, Dilma Rousseff chega à Presidência da República. A primeira mulher presidente do Brasil nunca havia entrado em qualquer disputa eleitoral. Na primeira, venceu.

Ainda que muitos tenham criticado sua imagem, foi com a estampa tão diferente do seu antecessor que demonstrou ser opção melhor que seu o adversário (tantas vezes eleito sem nada finalizar direito).

Dilma não precisa provar que chora, ou não chora. Sem #mimimi, ela age. Disciplinada, exigente, combatente (lembrou-se de sua mãe ou avó?). É mulher guerreira como tantas outras que erguem lares país afora e os mantém na luta da lida diária. Leais ao próprio destino de sobrevivência. Sem choro, não necessariamente sem sentir ou sofrer.

Dilma inaugura nova fase (tomara!) em que valores sexistas, machistas, tendem a enfraquecer. Entra em cena uma mulher e esse fato tem que significar algo positivo e valorizado neste país. Eu, sinceramente, fico muito desesperançosa ao assistir, presenciar, ouvir, ler “brincadeiras” e “piadas” tão preconceituosas (já no século XXI tecnológico e globalizado) que minha sensação é a de que o ser humano não tem mesmo evolução natural possível. Explico.

Vi, durante a campanha, tantos comentários idiotas sobre estética, vestuário, beleza capilar e facial, etc. que achei se tratar de concurso de misses falsificadas-plastificadas, como ultimamente são as da indústria de beleza venezuelana. Tudo bem que os políticos não representam a categoria mais confiável, mas diminuir a discussão política de um país ao penteado de uma candidata ou as estampas de suas roupas, quantidade de lágrimas e de sorrisos, me fazem desqualificar a inteligência dos enfáticos comentaristas-eleitores de plantão.

Deixemos bem claro que existe diversidade e que pluralidade é a palavra da moda nesta época de convenções e tratados internacionais de clima, saúde, trabalho, direitos humanos e tal. Assim, nem toda mulher é uma Barbie que vive no planeta cor-de-rosa. Nem toda mulher é frágil feito sapatinhos de cristal. Nem toda mulher se descabela escada abaixo à meia noite com medo de se transformar. Nem toda mulher espera em berço esplendido alguém para lhe salvar. E, claro, nem toda mulher tem o olhar firme, a voz decidida e a coragem para servir a um país.

Dilma é aquele tipo de pessoa (mulher) que ri quando acha graça. Ela é assertiva, característica tão desprezada neste país de amadores, inseguros e tementes a qualquer profissionalização ou nível maior de exigências quanto à capacidade e habilidades (que vencem, óbvio,  o tal “jeitinho” de tudo se resolver).

A recém-eleita presidenta, segundo as reportagens, é organizadora, leal, obstinada e sabe cobrar compromissos. O Brasil se dividiu, porém escolheu. E ela é mulher. Os brasileiros estão mudando? Estamos avançando para a conquista de novas liberdades, menos uniformes e conservadoras ditadas desde sempre pelos homens nesta nação? Nas urnas não a escolhi (nem ao adversário), mas faço votos de que o governo Dilma seja sem comparações.

Por Solange Pereira Pinto

P.S. E finalizo com um poema para ser ouvido http://www.youtube.com/watch?v=i6vQmLfRLyU&NR=1

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